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«A poesia é, ainda hoje, o modo menos indigno de falar de Deus»: Entrevista a Mário Rui de Oliveira

«E se Deus regressasse à poesia e isso fosse não uma reação mas a novíssima revolução? O luxo da modernidade é, sem dúvida, poder ler os textos e a realidade sem Deus, mas a noite sem estrelas é menos bela, e Deus nunca abandonou a poesia, somente se revestiu de fragilidade e mais humanidade, vestiu-se de mendigo e preencheu os espaços em branco que separam uma palavra da outra, iluminando as palavras de um mistério ainda mais profundo. A poesia é, ainda hoje, o modo menos indigno de falar de Deus. É por isso que o grande teólogo Hans Urs Von Balthasar escreveu que a melhor teologia do século XX foi escrita por poetas.»

São de um poeta e padre português, e agora dos leitores, as palavras acima transcritas, extraídas de uma entrevista publicada esta terça-feira na página Ytali.

Nascido a 17 de abril de 1973 em Joane, Famalicão, Mário Rui de Oliveira, doutorado em Direito Canónico e em Jurisprudência pela Universidade Pontifícia Gregoriana, vive em Itália desde 2007, trabalhando ao serviço do Vaticano como ministro do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, a mais alta instância judicial da Igreja.

«Certamente foi Roma a levar-me à poesia. Gosto de pensar que a poesia e Roma me fizeram assim, tal como sou. Um jovem de província, do norte de Portugal, de um país com o nome de uma personagem de Gil Vicente (“Joane”) e onde fui feliz, sofri e comecei a encontrar um sentido. Em Roma caminho sempre com o coração nas mãos, tocando as paredes, procurando o vento da noite. Esta, por isso, é a minha casa», confidencia no diálogo com Francisco de Almeida Dias, do Instituto Português de Santo António, na capital italiana.

Antes de emigrar, publicou, num período concentrado, os seus quatro trabalhos literários, todos na editora Assírio & Alvim: duas recolhas de poesia, “O vento da noite” (2002), com prefácio do poeta Eugénio de Andrade, e “Bairro judaico” (2003), e duas traduções poéticas do italiano Tonino Guerra (1920-2012), “Histórias para uma noite de calmaria” (2002) e “O mel”, edição bilingue português-romanholo (2004).



«A poesia tem também esta missão: expor a nossa nudez, como uma palavra final. Creio que precisamente a isto se refere Novalis quando escreveu “quanto mais poético mais real”, ou Paul Celan quando disse “só mãos verdadeiras podem escrever poesia verdadeira”. A poesia é um caminho de verdade»



Depois de um sucesso «reconhecido pelos maiores», Mário Rui de Oliveira «desaparece da cena literária portuguesa. Só duas ou três vezes neste intervalo, em artigos ou entrevistas que o reconhecem como um dos portugueses influentes junto da Cúria pontifícia, vem citada de passagem a sua vocação poética (inclusive no recente artigo de Miguel Marujo no Diário de Notícias de 28 de junho de 2018), lida em chave invariavelmente teológica», observa Francisco de Almeida Dias.

Sobre a sua história, Mário Rui de Oliveira diz que prefere a palavra liberdade, «à qual um amigo gostava de brindar, dizendo, “à liberdade, que é sempre pouca”», à palavra predestinação, citando, sobre esta, o que escreveu um dos «mestres da suspeita» portugueses, Vergílio Ferreira: «O importante não é o que a vida fez de nós, mas aquilo que nós fizemos com o que a vida fez de nós».

«Dá-me gosto quando falam da minha escrita e nela descobrem a presença, ainda que dissimulada ou apenas sussurrada, mas mesmo assim viva, do transcendente. Sonho uma poesia que possa povoar novamente de estrelas o abismo», assinala.

Mário Rui de Oliveira define-se com a indefinição: «Sou ainda um mistério muito grande para mim próprio como poeta. Não sei sequer porque continuo a escrever e se aquilo que escrevo pode considerar-se poesia. Sou um homem simples que talvez tenha sido visitado pela poesia sem a ter negado. Mas a santidade é muito mais importante e deveria ser esta a maior ambição do poeta».

Os 14 anos passados desde a última publicação estão a ser um período de «fermento poético»?, questiona o entrevistador. A vida profissional «absorve» e «afasta daquilo que é essencial», responde, acrescentando: «Mas a poesia é uma “inhabitação”, corre nas veias, é íntima da alma, e quando menos se espera surpreende-te como uma visitação».



«O legado de Tonino a este mundo tão carente de cultura é a urgência e a possibilidade da poesia. Ele mostrou-nos o caminho: o olhar atento, doce, afetuoso sobre esse mundo que abandonamos, mas do qual brota ainda hoje um fiozinho de luz onde pode residir a salvação»



Sobre o título “Bairro judaico” explica que se trata de «uma das áreas mais simbólicas e de grande complexidade pela sua concentração de dor e desejo de reconstruir a vida das ruínas» que se encontra em Roma. «Hoje é um lugar de grande efervescência cultural e gastronómica, mas de lá partiram, durante a Segunda Guerra Mundial, milhares de pessoas para a deportação e para a morte. As nossas vidas assemelham-se muito a cidades destruídas, e neste sentido o “Bairro judaico” é um convite a reduzir tudo ao essencial. Aquele bairro é um ambiente concentracionário, como a poesia. Aquele bairro é o mundo e é o nosso coração».

O poeta recorda que no bairro viveu uma fotógrafa americana da sua preferência, Francesca Woodman, «que passava o tempo a tirar-se fotografias nua, numa obstinada atitude de desaparecimento. A poesia tem também esta missão: expor a nossa nudez, como uma palavra final. Creio que precisamente a isto se refere Novalis quando escreveu “quanto mais poético mais real”, ou Paul Celan quando disse “só mãos verdadeiras podem escrever poesia verdadeira”. A poesia é um caminho de verdade».

Sobre Tonino Guerra, palavras de admiração: «Era um artesão das palavras, o maior narrador e encantador de histórias. Era Xerazade redivivo, ele que faz depender a vida da narração incessante e infinita de uma história».

«O legado de Tonino a este mundo tão carente de cultura é a urgência e a possibilidade da poesia. Ele mostrou-nos o caminho: o olhar atento, doce, afetuoso sobre esse mundo que abandonamos, mas do qual brota ainda hoje um fiozinho de luz onde pode residir a salvação. As igrejas abandonadas, as horas e a fruta dos tempos das nossas avós que recuperam as cores e os sabores de então, a luz crepuscular de uma noite de verão que cobre de sombras um corpo nu deitado sobre a areia, o último olhar dos apaixonados momentos antes de entrar num convento, um louco que atravessa uma piscina com uma candeia na mão implorando um milagre, uma velha que se enamora do tique-taque de um relógio porque a faz recordar um coração, etc.».

A sua herança, aponta Mário Rui de Oliveira, deixou, «sobretudo a quem dele se aproximou e recebeu o grande dom da sua amizade, uma consciência. Consciência da necessidade de incendiar o mundo de beleza, amor e poesia, consciência da poesia como uma missão que quer transformar a sociedade».

De “O vento da noite”: «Num daqueles dias de outono, em que nos queima a vermelha labareda das folhas, um amigo pedia que lhe contasse uma história. “Salva-me a vida, conta-me uma história.” E eu recordei aquela mulher das “Mil e uma noites”, que encadeava, com doçura e desespero, uma história na outra, pois só a história infinita nos permite escapar à maldição da morte.
Um amigo é uma história que nos salva.»


Imagem D.R.

 

Rui Jorge Martins
Fonte: Francisco de Almeida Dias / Ytali
Imagem: D.R.
Publicado em 05.09.2018

 

 
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