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Leitura: "A pastoral das grandes cidades"

Leitura: "A pastoral das grandes cidades"

Imagem Capa | D.R.

«Neste tempo de globalização em que vivemos, as grandes cidades do mundo têm desafios, dificuldades e possibilidades semelhantes no anúncio do Evangelho e na realização da missão da Igreja. Sempre pensei que nós, pastores das grandes cidades, nos deveríamos apoiar mais, partilhando a reflexão pastoral e as experiências eclesiais que vivemos nas nossas dioceses urbanas.»

Esta é a convicção do arcebispo emérito de Barcelona, cardeal Lluís Martínez Sistach, organizador do livro "A pastoral das grandes cidades", publicado na sequência do primeiro congresso internacional que, com o mesmo título, decorreu em 2014, em fases separadas, na capital catalã e no Vaticano.

A obra, lançada em Portugal pela Paulus Editora, foi apresentada na semana passada, em Fátima, pelo organizador e pelo cardeal-patriarca de Lisboa, que acompanhou a segunda parte da iniciativa, em novembro, na cidade de Gaudí.

O congresso foi promovido por Lluís Sistach, então arcebispo de Barcelona, no seguimento de conversas com o cardeal Bergoglio antes do conclave que em 2013 o elegeu papa

«No regresso a Barcelona, o cardeal Sistach resolveu organizar o encontro em duas fases: na primeira, foram ouvidos especialistas; na segunda, os pastores analisaram e debateram a pastoral das grandes cidades. São essas intervenções e debates que podem ser lidos neste livro», explica a editora.

Dirigindo-se aos participantes no congresso, aquando da sessão realizada no Vaticano, a 27 de novembro, o papa afirmou que na cidade há «necessidade de outros "mapas"», de outros paradigmas», que ajudem «a situar de novo» pensamentos e atitudes da Igreja».

«Não podemos permanecer desorientados, porque este desconcerto nos leva a errar o caminho, em primeiro lugar nós mesmos, mas depois confunde inclusive o povo de Deus e aquilo que ele procura com um coração sincero: a Vida, a Verdade e o Sentido», sublinhou.

Depois de vincar que é «preciso ter a coragem de realizar uma pastoral evangelizadora audaz e sem receios», Francisco lembrou que as grandes cidades são multipolares, multiculturais»

«Temos o dever de dialogar com esta realidade, sem ter medo. Então, trata-se de manter um diálogo pastoral sem relativismos, que não negocia a própria identidade cristã, mas que deseja alcançar o coração do próximo, dos outros que são diferentes de nós, e ali semear o Evangelho», assinalou.

Para o papa, os católicos precisam de «uma atitude contemplativa que, sem rejeitar a contribuição dada pelas diversas ciências para conhecer a realidade urbana — estes contributos são importantes — procura descobrir o fundamento das culturas, que no seu núcleo mais profundo permanecem sempre abertas, sequiosas de Deus»

«Deus habita na cidade. É necessário ir à sua procura e deter-se lá onde Ele se põe a agir», apontou Francisco, antes de acentuar que Deus continua a falar «também hoje, como sempre fez, através dos pobres, do "resto".



Não se tratava de planificar a pastoral de nenhuma das nossas dioceses, mas simplesmente deixar-nos interpelar pelas reflexões dos especialistas sobre a realidade atual das grandes concentrações urbanas, enriquecer-nos com as reflexões dos outros pastores e conhecermo-nos um pouco mais para nos podermos ajudar no futuro, para o bem da pastoral da respetiva Igreja local



Prólogo
Card. Lluís Martínez Sistach
In "A pastoral das grandes cidades"

Atualmente, 52% da população mundial vive nas grandes cidades e o processo está em crescimento. Sempre considerei que estas grandes concentrações urbanas interpelam a pastoral aí desenvolvida, muitas vezes com critérios rurais herdados de um período anterior à explosão urbana atual. A reflexão dos pastores destas megalópoles poderá ajudar-nos a criar uma pastoral urbana que facilite e torne mais fecunda a presença evangelizadora da Igreja e dos cristãos. O Congresso Internacional de Pastoral das Grandes Cidades, que realizámos em Barcelona, responde a esta preocupação e a este objetivo.

O Papa Francisco, na audiência que nos concedeu a 27 de novembro de 2014, quis participar no congresso e continuar o trabalho que tinha sido feito, quando nos dizia no seu interessante e rico discurso que «neste momento, ao meditar convosco, quero entrar nesta “corrente” para abrir novos caminhos, mas também desejo ajudar a examinar possíveis medos, que de certo modo, com frequência, todos nós temos, e que nos confundem e paralisam».

Com a publicação das atas do Congresso Internacional de Pastoral das Grandes Cidades podemos afirmar que o congresso completou a sua tarefa. Concluiu-se um trabalho intenso e muito interessante e agora abre-se um outro trabalho com a difusão dos conteúdos do congresso, para que possam chegar a todo o mundo, com o desejo de ajudar a pastoral das grandes concentrações urbanas.

Neste tempo de globalização em que vivemos, as grandes cidades do mundo têm desafios, dificuldades e possibilidades semelhantes no anúncio do Evangelho e na realização da missão da Igreja. Sempre pensei que nós, pastores das grandes cidades, nos deveríamos apoiar mais, partilhando a reflexão pastoral e as experiências eclesiais que vivemos nas nossas dioceses urbanas. O Sínodo dos Bispos de outubro de 2012 constatou que, à data de hoje, as transformações das grandes cidades e a cultura que manifestam são um local privilegiado da nova evangelização. É verdadeiramente necessário chegar, precisamente, onde se geram as novas histórias e paradigmas, e alcançar com o Evangelho os núcleos mais profundos da alma das cidades.

O Congresso de Barcelona teve a sua origem, o seu objetivo e o seu método. Dar uma panorâmica geral dele pode contribuir para valorizar o seu conteúdo. O congresso, em certo sentido, foi concebido na sequência de conversas que tive com o cardeal Jorge Mario Bergoglio no Vaticano, nos dias anteriores ao Conclave de março de 2013 e poucos dias depois também com ele, eleito bispo de Roma e Sucessor de Pedro. O Papa Francisco exprimiu-me a sua preocupação com a pastoral da grande Buenos Aires e das grandes cidades, coincidindo com a minha preocupação com as megalópoles de Barcelona e de toda a sua área metropolitana.

Ao voltar a Barcelona, decidi realizar um Congresso Internacional de Pastoral das Grandes Cidades. E programei-o pensando em duas fases: a dos especialistas e a dos pastores diocesanos das grandes cidades dos cinco continentes. Duas fases necessárias e complementares. Os especialistas e os pastores complementam-se e são necessários para adquirirmos uma compreensão plena da realidade nas grandes cidades, porque para a pastoral destas cidades é necessário também fazer uma leitura teológica delas, sem a qual o conhecimento da realidade seria muito incompleto. Como afirma o Papa Francisco na sua "Evangelii gaudium" (EG), deve «identificar-se a cidade a partir de um olhar contemplativo, isto é, um olhar de fé que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas praças» (n.º 71). A cidade exige ser interpretada teologicamente e não só de um ponto de vista sociológico, urbanístico, económico, etc. A julgar pelos resultados do congresso, uma vez terminado, creio ter sido um bom método de trabalho.

Era conveniente que estas duas fases do congresso se realizassem com uma certa distância temporal que permitisse aos pastores – cardeais, arcebispos e bispos – receberem as reflexões dos sociólogos, pastoralistas, teólogos e outros especialistas para poderem refletir como pastores, para se deixarem interpelar e avaliar de que modo aqueles conteúdos influenciam a presença da Igreja e dos cristãos na sociedade e no anúncio do Evangelho.

Para que o método escolhido desse bons resultados e permitisse uma dinâmica ágil, era realmente preciso que os conteúdos da primeira fase fossem ricos, sugestivos e interpeladores para a pastoral das grandes metrópoles do mundo. Para isso, era preciso escolher os nove oradores entre os melhores especialistas e que viessem de continentes diferentes, dado que se tratava de um congresso de âmbito mundial. A fase dos especialistas decorreu entre 20 e 22 de maio de 2014 em Barcelona. Quero sublinhar que na realização do congresso aconteceram “milagres”, se me é permitido usar esta expressão. Primeiro “milagre”: o meu convite aos oradores para que viessem expor a sua conferência e participar nos três dias do congresso foi aceite por todos. Não é hábito que uma data sirva a nove pessoas de diversos continentes, e pessoas importantes no seu campo. Aconteceu ainda um segundo “milagre”, que é um cumprimento para estes oradores: todos, no momento de fazer a conferência, entregaram o seu texto escrito para ser publicado.

Todos os oradores participaram de manhã na leitura das conferências e nos colóquios que se lhes sucederam. Esta sua participação foi muito importante para o método do  congresso, visto que na tarde daqueles dias os oradores se reuniram com outros quinze peritos de várias especialidades para realizarem um trabalho de reflexão e diálogo sobre os conteúdos das conferências da manhã, para retirar as respetivas conclusões ou sublinhar conteúdos ou aspetos, questões ou sugestões que pudessem ajudar os pastores diocesanos no seu trabalho da segunda fase do congresso. Assim, graças à disponibilidade e competência dos oradores, foi possível elaborar um «Documento de Síntese», que juntamente com as conferências foi enviado aos pastores diocesanos para que pudessem preparar a sua reflexão e a sua participação nos dias 24 a 26 de novembro de 2014, quando decorreu a segunda fase do congresso de Barcelona.



Os quatro desafios são: viver uma mudança de mentalidade pastoral; dialogar com o multiculturalismo; prestar atenção à religiosidade do povo; e acudir aos pobres urbanos



Para alcançar os objetivos do congresso dedicado à pastoral das grandes cidades do mundo, a segunda fase tinha uma importância especial. Era como que o coroamento do trabalho de todo o congresso, inalcançável sem o contributo da primeira fase.

Na reunião dos pastores tratava-se de pôr em comum as reflexões destes cardeais, arcebispos e bispos provenientes de quatro continentes do mundo (a Austrália não estava representada, porque o cardeal Pell, arcebispo de Sidney, que tinha aceitado participar, fora transferido para Roma). Só participaram pastores. Não foi necessária qualquer conferência. Éramos todos oradores e o trabalho consistia em debater os conteúdos do «Documento de Síntese», muito apreciado por todos. Tratava-se de nos ajudarmos como pastores de grandes cidades com as nossas reflexões, à luz do conteúdo que os especialistas tinham proporcionado, mas também à luz da nossa experiência pastoral nas grandes cidades. Esta segunda fase pode ser equiparada a um “julgar” no trabalho do congresso. A primeira fase concedeu-nos o “ver” a realidade global das grandes cidades e deixou-se o “agir” para cada pastor diocesano, com o trabalho da sua própria Igreja, contribuindo com a riqueza daqueles dias de trabalho sinodal.

Não se tratava de planificar a pastoral de nenhuma das nossas dioceses, mas simplesmente deixar-nos interpelar pelas reflexões dos especialistas sobre a realidade atual das grandes concentrações urbanas, enriquecer-nos com as reflexões dos outros pastores e conhecermo-nos um pouco mais para nos podermos ajudar no futuro, para o bem da pastoral da respetiva Igreja local. Graças às abundantes e ricas intervenções de todos os pastores, tivemos a oportunidade de elaborar e acordar as Conclusões que apresentámos ao Papa Francisco.

Este congresso internacional nasceu das minhas conversas com o Papa Francisco e queria que acabasse escutando a voz do pastor da Igreja universal. Assim, pedi ao Papa para conceder uma audiência privada ao grupo dos pastores diocesanos reunidos em Barcelona. Francisco concedeu-nos muito generosamente a audiência a 27 de novembro, pela manhã. Este congresso começou e acabou cum Petro et sub Petro.

O Papa Francisco é uma voz muito autorizada na pastoral das grandes cidades porque, como arcebispo da grande Buenos Aires, sempre esteve interessado neste assunto. A 25 de agosto de 2011, o então cardeal Bergoglio pronunciou um discurso de abertura do primeiro Congresso Regional de Pastoral Urbana. Nas suas palavras, o arcebispo de Buenos Aires falou da «grande cidade, um novo sinal dos tempos», e expôs o que tinha sido considerado no Concílio Vaticano II e, em particular, na Constituição Gaudium et spes, para compreender o fenómeno da crescente urbanização do mundo. Neste discurso, disse que «a Igreja primitiva se formou nas grandes cidades do seu tempo e se serviu delas para se expandir»1. Um outro exemplo é o conteúdo dedicado aos desafios das culturas urbanas na sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, de 24 de novembro de 2013 (cf. n.os 71-75). Este documento de Francisco foi precisamente um verdadeiro pano de fundo teológico e pastoral nas duas fases deste congresso.

Fruto da sua experiência pastoral, na audiência de 27 de novembro, o Papa dirigiu-nos um discurso riquíssimo  de conteúdo eclesial e pastoral. Estas foram as suas primeiras palavras: «Falar-vos-ei a partir da minha experiência pessoal, de alguém que foi pastor de uma cidade populosa e multicultural como Buenos Aires. E também da experiência que pudemos realizar juntos, como bispos das onze dioceses que fazem parte daquela região eclesiástica; juntamente com eles, partindo de vários âmbitos e propostas, em comunhão eclesial, quisemos abordar alguns aspetos pastorais para a evangelização daquele aglomerado urbano com uma população de cerca de 13 milhões de habitantes, na totalidade das onze dioceses: Buenos Aires conta três milhões de habitantes à noite e, durante o dia, quase oito milhões de pessoas vêm à cidade […] Ocupa o décimo terceiro lugar entre as cidades mais densamente povoadas do mundo.»

Francisco quis enriquecer os resultados do congresso falando-nos de quatro desafios que são todos, simultaneamente, horizontes de uma pastoral urbana. Desafios, ou seja, locais de onde Deus nos chama. Horizontes, ou seja, aspetos a que devemos prestar particular atenção. Os quatro desafios são: viver uma mudança de mentalidade pastoral; dialogar com o multiculturalismo; prestar atenção à religiosidade do povo; e acudir aos pobres urbanos. Por fim, o Papa indicou-nos as atitudes pastorais fundamentais na grande cidade: sair com o objetivo de suscitar a fé, como fez Jesus com Zaqueu, e ser uma Igreja samaritana que atrai pelo seu testemunho e assenta as suas raízes nas periferias existenciais da megalópole.

O Congresso Internacional de Pastoral das Grandes Cidades realizado em Barcelona concluiu-se, mas o trabalho perseverante ao serviço desta pastoral continua. Foi isto que o Papa Francisco nos pediu na sua mensagem enviada a 25 de novembro na celebração cultual-cultural que teve lugar na singular Basílica da Sagrada Família, com a participação dos pastores diocesanos e do povo de Deus, reunidos na emblemática igreja no centro da grande cidade de Barcelona: «Congratulo-me pelos esforços envidados e encorajo todos a continuar a refletir, de maneira criativa, sobre o modo de desempenhar a tarefa evangelizadora nos grandes núcleos urbanos, cada vez mais em expansão, e nos quais todos têm a necessidade de sentir a proximidade e a misericórdia de Deus, que nunca nos abandona.» Para realizar esta tarefa, instituí a Fundação Antoni Gaudí para as grandes cidades, que tem em vista prestar um serviço e uma reflexão que deve ser de todos.



 

Publicado em 16.11.2016

 

Título: A pastoral das grandes cidades
Organizador: Lluís Martínez Sistach (org.)
Editora: Paulus
Páginas: 486
Preço: 17,10 €
ISBN: 978-972-301-925-4

 

 
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