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«A nossa orientação sexual não pode ser o nosso cartão de visita. O nosso cartão de visita é que todos somos irmãos»

Imagem D.R.

«A nossa orientação sexual não pode ser o nosso cartão de visita. O nosso cartão de visita é que todos somos irmãos»

«A nossa orientação sexual não pode ser o nosso cartão de visita. O nosso cartão de visita é que todos somos irmãos», considera o coordenador nacional da associação "Rumos Novos - Homossexuais Católicos".

A posição de José Leote foi apresentada este sábado, em Lisboa, no painel de testemunhos intitulado "Experiências pastorais de acolhimento de pessoas homossexuais", integrado no ciclo de debates "E se o essencial estiver noutro lugar", organizado pelas Monjas Dominicanas do Mosteiro de Santa Maria.

Na conferência participou igualmente Rui A., fundador e animador do blogue "Moradas de Deus", para quem a Igreja não tem um programa pastoral estruturado para pessoas homossexuais, mas iniciativas dispersas.

Apresentamos excertos dos dois testemunhos, em redação composta a partir das respostas dadas às questões alternadamente colocadas aos convidados pela moderadora, Lígia Silveira.

 

José Leote

«Antes via a homossexualidade como algo passageiro, que passaria com o casamento. Não foi assim, pelo que optei por não manter uma vida dupla, como muitas outras pessoas. Hoje tenho uma excelente relação com todos os meus três filhos.

Quando revelei a homossexualidade, o pároco da minha comunidade esqueceu-se de tudo o que tinha feito até então na paróquia e nos escuteiros. Tornei-me uma "persona non grata". Fui tratado de forma muito pouco cortês pelo meu prior, que era visita na minha casa. Soube que a homilia do domingo seguinte, em que não participei, foi totalmente dedicada ao meu "caso", sem que eu pudesse dizer o que quer que fosse das acusações que publicamente proclamou.

Acabei por me afastar muito da Igreja, mas não de Deus. Não podia estar numa Igreja que sistematicamente me condenava. A participação num grupo de católicos homossexuais contribuiu para a minha reaproximação.

Há pessoas que vivem a mesma situação que eu e têm mágoas muito profundas em relação à Igreja. Muitas afastaram-se de tal maneira que nunca mais voltarão.

As vidas de muitos de nós são vias-sacras que nos aproximam de Cristo. Quando a Igreja se refere à homossexualidade como comportamento intrinsecamente desordenado, olhamos para Jesus pedindo perdão para quem pensa assim.

É a fé que nos mantém na Igreja. A nossa orientação sexual não pode ser o nosso cartão de visita. O nosso cartão de visita é que todos somos irmãos. Antes de partirmos para o julgamento, temos de partir para o acolhimento. As pessoas homossexuais não precisam de uma pastoral especial; o que é preciso é acolher quem fugiu da Igreja.

O "Rumos Novos", que organiza encontros mensais abertos a todas as pessoas, independentemente da sua orientação sexual, é um grupo que surgiu com a intenção de desaparecer, depois de consolidada a integração dos homossexuais na Igreja.

Recebemos pessoas de um grande número de paróquias. Há muitos católicos que estão calados dentro das suas comunidades porque têm medo. Não podemos ser uma Igreja que separa. Uma vez um padre disse: "Podem ser homossexuais, mas não digam"; é uma compaixão enviesada.

Nós, no "capítulo" [delegação] de Lisboa, começámos por reunir num hotel, o que nos pareceu estranho. Por isso fomos à procura de locais, em paróquias lisboetas, onde nos pudéssemos encontrar. A única porta que se nos abriu foi a das Monjas Dominicanas do Lumiar, de quem ouvimos: "Nesta casa são bem-vindos todos os que vêm ouvir a Palavra de Cristo".

Dos padres que conheço, os mais novos são os que têm opiniões mais alérgicas em relação à homossexualidade. Mas também posso testemunhar situações de acolhimento.

Em outubro de 2014 foi organizado em Portimão o primeiro Congresso Mundial das Associações Homossexuais Católicas. Para evitar que os participantes se deparassem com a recusa do pároco em dar a comunhão durante a missa, quis saber antecipadamente o que pensava o pároco do assunto. A sua resposta deixou-me feliz: «Na minha igreja não se pergunta à porta pela orientação sexual das pessoas».

À Igreja pedimos uma maior latitude na abordagem. Revemo-nos na fidelidade e na entreajuda mútua entre casais. Queremos trazer para a Igreja a liberdade, e não a libertinagem.

A resposta da Igreja para as pessoas homossexuais não pode ser baseada na compaixão nem nas sensibilidades - gosto ou não gosto.

Penso que esperamos mais do papa Francisco do que ele pode dar, ainda que as suas intervenções sejam um grande avanço. Todavia, do ponto de vista doutrinal, ainda não disse nada de diferente nem introduziu qualquer princípio novo no que se refere ao acolhimento aos homossexuais.

Lembro que quando ainda era arcebispo de Buenos Aires, Bergoglio afirmou que o casamento entre pessoas do mesmo sexo é uma obra do demónio para destruir a sociedade.

A grande novidade do papa Francisco é a nova abordagem para questões às quais a Igreja tem de dar resposta.»

 

Rui A.

«Foi tardiamente que me aceitei como homossexual. Durante muito tempo escondi a homossexualidade de mim mesmo. Prefiro a palavra "homoafetivo" porque realça o amor entre pessoas.

A minha fé nunca esteve enraizada em ensinamentos morais, mas em Cristo. Por isso ela não afetou a aceitação da homossexualidade. Nunca senti que Deus me amasse menos por ser quem sou.

A proximidade de Jesus aos pobres e aos pequeninos constitui um dos alicerces em que baseio a minha espiritualidade cristã no contexto da minha orientação sexual.

Não há uma pastoral para pessoas homossexuais, mas vão acontecendo coisas, pequenos indícios. Eu participo num grupo que se reúne de três em três semanas. São pessoas que por motivos familiares ou profissionais desejam viver a sua orientação sexual com muita discrição.

Neste momento estamos a estudar a exortação "A alegria do Evangelho", do papa Francisco. Não sabemos qual vai ser a evolução deste trabalho, mas deixamos em aberto a possibilidade de enviar a nossa análise para o secretariado do sínodo que o patriarcado de Lisboa está a realizar.

Foi por sentir que havia uma falha na Igreja, um caminho em falta, que criei o blogue "Moradas de Deus". A maior parte dos leitores lê-o a partir do Brasil, mas também há muitas consultas da Rússia e do continente africano.

Não tenho de ocultar o facto de me ter apaixonado por um homem. Mas em torno desta questão há muita solidão, silêncio e frustração.

A homossexualidade é tabu nos seminários. Se um seminarista se descobre homossexual, o seu diretor espiritual aconselha-o a não falar disso, porque em caso contrário não pode ser ordenado.

Como é que um padre que não pode falar destas questões tem capacidade para acompanhar um fiel que seja homossexual?

A tradução portuguesa do questionário enviado do Vaticano para preparar o sínodo extraordinário dos bispos sobre a família, realizado em outubro de 2014, desviava-se do original e parecia querer orientar as respostas.

Alguns "bons" cristãos ficam chocados por uma pessoa homossexual ter tanto lugar na Igreja como eles próprios.»

O papa Francisco tem falado muito de uma Igreja em saída, referindo-se à necessidade de testemunhar o Evangelho nas periferias, fora dos adros; mas eu penso que a Igreja deve também estar em saída dentro de si própria.

 

Redação: Rui Jorge Martins
Publicado em 18.02.2015

 

 
Imagem D.R.
Nós, no "capítulo" [delegação] de Lisboa, começámos por reunir num hotel, o que nos pareceu estranho. Por isso fomos à procura de locais, em paróquias lisboetas, onde nos pudéssemos encontrar. A única porta que se nos abriu foi a das Monjas Dominicanas do Lumiar, de quem ouvimos: "Nesta casa são bem-vindos todos os que vêm ouvir a Palavra de Cristo"
À Igreja pedimos uma maior latitude na abordagem. Revemo-nos na fidelidade e na entreajuda mútua entre casais. Queremos trazer para a Igreja a liberdade, e não a libertinagem
O papa Francisco tem falado muito de uma Igreja em saída, referindo-se à necessidade de testemunhar o Evangelho nas periferias, fora dos adros; mas eu penso que a Igreja deve também estar em saída dentro de si própria
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