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«A minha sede é a minha bem-aventurança»: Última meditação do P. Tolentino Mendonça ao papa

As bem-aventuranças e o estilo de vida dos crentes e da Igreja estiveram no centro da meditação com que na manhã desta sexta-feira o P. José Tolentino Mendonça concluiu os exercícios espirituais para o papa e a Cúria Romana.

Após a reflexão, Francisco agradeceu ao sacerdote português a pregação no retiro quaresmal que desde domingo decorreu em Ariccia, a cerca de 30 km do Vaticano (vídeo no fim do artigo).

A Igreja é chamada a abrir-se «sem medos, sem rigidez», a ser suave «no Espírito» e não mumificada em «estruturas que a fecham», afirmou o papa ao agradecer pessoalmente ao P. Tolentino Mendonça.

O pontífice expressou o seu agrado pelo facto de o pregador ter falado da Igreja como um «pequeno rebanho», que todavia não pode ficar ainda mais pequeno com «mundanidades burocráticas».

Para Francisco, a Igreja, «não é uma gaiola para o Espírito Santo», porque este «também voa do lado de fora e trabalha» nos «não crentes, nos “pagãos”, nas pessoas de outras confissões religiosas», dado que Ele é «universal, é o Espírito de Deus, que é para todos».



Imagem O abraço do papa Francisco ao P. José Tolentino Mendonça no final dos exercícios espirituais. Do lado direito da imagem o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura | 23.2.2018 | Ariccia, Itália. Do lado direito da imagem o cardeal Gianfranco Ravasi, presidente do Conselho Pontifício da Cultura | D.R.

Imagem D.R.

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As bem-aventuranças, chamamento existencial

Nesta décima meditação, o biblista vincou que as bem-aventuranças são mais do que uma lei, representando uma «configuração da vida», um «verdadeiro chamamento existencial».

Elas traçam «a arte de ser aqui e agora», ao mesmo tempo que apontam para o «horizonte da plenitude escatológica», ou seja, o tempo eterno após a morte, para o qual convergimos.

Por outro lado, as bem-aventuranças são igualmente o «auto-retrato de Jesus mais exato e fascinante», a chave da sua vida, «pobre em espírito, manso e misericordioso, sedento e homem de paz, com fome de justiça e com a capacidade de acolher todos».

As bem-aventuranças são «a imagem de si próprio que Ele incessantemente nos revela e imprime nos nossos corações. Mas são também o seu retrato que nos deve servir de modelo no processo de transformação do nosso próprio rosto, no qual devemos aprofundar a “imagem e semelhança” espirituais que liga cada dia o nosso destino ao destino de Jesus», sublinhou o poeta e ensaísta.

 

Não a um cristianismo de sobrevivência

A sede de Deus é fazer com que «a vida das suas criaturas seja uma vida de bem-aventurança». Como? Resgatando as nossas vidas com um «amor» e uma «confiança» incondicionais. É este o seu «método», é esta a «bem-aventurança» que nos salva. É este «espanto do amor que nos faz começar de novo», esta «sede» que nos consegue arrancar do «exílio a que fizemos aportar a nossa vida».

«Por isso não nos basta um cristianismo de sobrevivência, nem um catolicismo de manutenção. Um verdadeiro crente, uma comunidade crente, não pode viver só de manutenção: precisa de uma alma jovem e enamorada, que se alimenta da alegria da procura e da descoberta, que arrisca a hospitalidade da Palavra de Deus na vida concreta, que parte ao encontro dos irmãos no presente e no futuro, que vive no diálogo confiante e oculto da oração», apontou o P. Tolentino Mendonça.

É urgente «redescobrir a bem-aventurança da sede»: a pior coisa para um crente é «estar saciado de Deus». Pelo contrário, felizes aqueles que «têm fome e sede de Deus»: a experiência da fé, com efeito, «não serve para resolver a sede», mas para «dilatar o nosso desejo de Deus, para intensificar a nossa procura. Precisamos, talvez, de nos reconciliar mais vezes com a nossa sede, repetindo a nós próprios: “A minha sede é a minha bem-aventurança”».

 

A Igreja como Maria: escuta, honestidade, serviço

Foi ainda à Igreja que o primeiro diretor do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura se dirigiu na última parte da meditação, dedicada à «bem-aventurança» de Maria, mestra e modelo dos católicos a caminho

É importante não olhar para a bem-aventurança de Maria em «chave abstrata», mas «real e concreta». O seu diálogo com Deus, no momento em que o anjo lhe anuncia que Deus lhe propõe ser mãe do seu Filho, «é franco», não deixa de fora emoções, surpresas e dúvidas, até à confiança incondicional e ao seu sim. Deus salva-nos não «apesar de nós, mas com tudo aquilo que nós somos», e isso faz-nos «enfrentar a vida com renovada confiança».

O estilo mariano deve ser o modelo inspirador do viver: Maria acolhedora, que escuta e está «aberta à vida»; Maria «honesta» na sua relação com Deus; Maria «ao serviço» de um projeto maior. Sem Maria, concluiu o P. Tolentino Mendonça, a Igreja arrisca «desumanizar-se», tornar-se «funcionalista», uma «fábrica febril incapaz de parar».















 

Gabriella Ceraso/Vatican News, Barbara Castelli/Vatican News
Trad. / edição: SNPC
Imagem: Maria Sbytova/Bigstock.com
Publicado em 23.02.2018 | Atualizado em 24.02.2018

 

 
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