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A liberdade nasce da luta interior

A liberdade nasce da luta interior

Imagem "As tentações de Santo António abade" (det.) | Bernardo Parentino | 1494 | Galeria Doria Panphilj, Roma, Itália

Os termos “asceta” e “atleta” não só partilham a mesma etimologia, mas referem-se a um horizonte muito mais amplo do que o daqueles que colocam à prova o próprio corpo na procura de Deus ou nas competições desportivas. O “agon”, o combate, diz respeito a cada um de nós, chamado a enfrentar o duro ofício de viver e o exigente desafio do próprio ser “animal social”. E se essa luta pode indicar uma instância de competitividade, por vezes excessiva ao assumir-se como critério exclusivo, a luta espiritual é dela o saudável contraponto.

Exigência radical para uma vida interior robusta, presente em todas as religiões e em numerosas escolas filosóficas, a luta espiritual na tradição judaico-cristã surge desde as primeiras páginas da Bíblia: chamado a “dominar” no interior da criação, o ser humano deve exercitar um domínio sobre si, sobre o mal que o ameaça: «O pecado deitar-se-á à tua porta e andará a espreitar-te. Cuidado, pois ele tem muita inclinação para ti, mas deves dominá-lo» (Génesis 4,7). Trata-se, portanto, de uma luta interior, não dirigida contra seres exteriores a si, mas contra as tentações, os pensamentos, as sugestões e as dinâmicas que levam à consumação do mal.

O apóstolo Paulo, servindo-se de imagens bélicas e desportivas (a corrida, o pugilismo… reemerge a justaposição atleta/asceta), fala da vida cristã como um esforço, uma tensão interior para permanecer na fidelidade a Cristo, que comporta o desmascaramento das dinâmicas através das quais o pecado faz caminho no coração humano, de modo a podê-lo combater na sua fonte.

O coração, com efeito, é o lugar desta batalha. O coração entendido no sentido, derivado da antropologia bíblica, de órgão que melhor pode representar a vida na sua totalidade: centro da vida moral e interior, sede da inteligência e da vontade, contém os elementos constitutivos daquela que nós chamamos a “pessoa” e aproxima-se do que definimos por “consciência”.



É-lhe necessária a resistência espiritual nos confrontos com as pulsões, sugestões, obsessões adormecidas no profundo do nosso coração, mas que muitas vezes acordam e emergem com uma prepotência agressiva que as tornam para nós tentações sedutoras



Mas tudo isto, no cristianismo, não é, de todo, simplesmente um movimento de “discernimento e de ajustamento psicológico”: esta, diz Paulo, é «a luta da fé» (1 Timóteo 6,12), a única luta que pode ser definida como “boa”. É a luta que nasce da fé, do ligame com Cristo manifestado desde o Batismo, que acontece na fé, ou seja, na confiança na vitória já trazida pelo próprio Cristo, e que conduz à fé, à sua conservação e ao seu robustecimento.

A luta espiritual visa, segundo a tradição cristã, proteger a “sanidade espiritual” do crente. Disciplina indubitavelmente árdua mas capaz de transformar a fadiga em beleza, qualidade da vida autêntica e da convivência. É-lhe necessária a resistência espiritual nos confrontos com as pulsões, sugestões, obsessões adormecidas no profundo do nosso coração, mas que muitas vezes acordam e emergem com uma prepotência agressiva que as tornam para nós tentações sedutoras.

Se o fim da luta espiritual é a “apatheía”, ela deve ser entendida não no sentido da impassibilidade, mas da ausência de patologias: dessa forma este combate diário coloca em ato a valência terapêutica da fé. Sendo a vida espiritual uma vida realíssima e concretíssima, ela deve ser alimentada e corroborada para poder crescer e deve ser protegida quando é ameaçada na sua integridade.



Sempre, em todos estes âmbitos, a tentação configura-se como sedução para viver no regime do consumo, em vez da comunhão. Quem é experimentado na vida espiritual sabe que esta luta é mais dura que todas as lutas exteriores, mas conhece também o fruto de pacificação, de liberdade, de mansidão e de caridade que ela produz



Ocidente e Oriente cristão codificaram âmbitos e espaços em que deve ser exercitada tal luta para manter sempre o crente numa saudável atitude de comunhão, e não de consumo. E as diversas tradições espirituais também indicaram muito concretamente as modalidades de tal luta, a começar pela indispensável abertura do coração numa relação de confiança com um “ancião”, um “pai” espiritual. A ela se unem a oração, a excuta e a interiorização da Palavra de Deus e uma vida de relação, de caridade intensa e autêntica.

Esta luta exige pois uma grande capacidade de vigilância sobre si e sobre muitas relações que se entrelaçam e sobre as quais se pode aninhar a tentação, nas suas múltiplas formas que abraçam a multiplicidade das relações antropológicas fundamentais. A relação com a alimentação, com o próprio corpo e a própria sexualidade, com as coisas (em particular os bens, o dinheiro), com os outros, com o tempo, com o espaço, com o trabalho, com Deus.

Sempre, em todos estes âmbitos, a tentação configura-se como sedução para viver no regime do consumo, em vez da comunhão. Quem é experimentado na vida espiritual sabe que esta luta é mais dura que todas as lutas exteriores, mas conhece também o fruto de pacificação, de liberdade, de mansidão e de caridade que ela produz. É graças a ela, com efeito, que o amor, todo o nosso amor, é purificado e ordenado.



 

Enzo Bianchi
In "Monastero di Bose
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 03.01.2017

 

 
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