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A lealdade abre até o céu

Imagem D.R.

A lealdade abre até o céu

A cultura dos incentivos está a transformar-se em nova ideologia do nosso tempo; surgiu nas grandes empresas capitalistas e está a emigrar para os setores da saúde, da cultura, da escola. O principal limite e perigo desta cultura do trabalho é uma visão empobrecida do ser humano, pensado e descrito como indivíduo que no trabalho é motivado exclusivamente por recompensas extrínsecas e monetárias, de quem se poderá obter praticamente tudo e em todos os âmbitos da vida, desde que adequadamente pago.

Graças a Deus, os homens e as mulheres são muito mais ricos e belos do que esta caricatura. Podemos fazer coisas mesmo grandes, mas queremos muito mais que dinheiro; as "moedas" mais preciosas são o reconhecimento, a estima, a gratidão. Somos capazes de dar o melhor de nós mesmos se e quando nos sentimos estimados e reconhecidos, se somos "vistos" e nos agradecem. A grande e verdadeira questão no centro da cultura do incentivo é, portanto, a da liberdade.

«São preguiçosos.» Foram as palavras que o rei do Egito dirigiu aos seus funcionários depois do encontro com Moisés e Aarão que lhe tinham pedido, em nome do Semhor, para libertar o povo, para que pudesse celebrar três dias no deserto: «São uns preguiçosos, e por isso gritam "queremos ir oferecer sacrifícios ao nosso Deus". Sobrecarreguem essa gente com mais trabalho, mantenham-nos ocupados para que não dêem ouvidos às mentiras que lhes vêm contar» (Êxodo 5,8-9).

É típico dos impérios considerar os súbditos preguiçosos e mandriões e obrigá-los a trabalhar mais, para evitar que nos intervalos do trabalho possa insinuar-se o desejo de liberdade, o desejo de um Deus diverso do faraó. Para os imperadores, os trabalhadores-súbditos só trabalham quando sentem nas costas o aguilhão dos "capatazes". Hoje em dia, em muitas regiões do mundo (não em todas) já não há imperadores; mas é muito frequente ver dirigentes que multiplicam tarefas para os trabalhadores e os obrigam a espalhar-se "por todo o Egito" (5,12) à procura de "palha" que não tinham. Provocam stress e mal-estar nos lugares de trabalho, e continuam a pensar que não se trabalha bastante nos campos e que os incentivos não foram bem concebidos. Os mandriões existem, mas são muito menos do que se pensa; existe uma invencível e cientificamente demonstrada tendência para sobreavaliar a preguiça dos outros e subestimar a própria.

Inserido neste episódio do Êxodo encontra-se também o primeiro protesto dos "dirigentes" de que fala a Bíblia, o protesto dos "capatazes". Trata-se de um dos protestos mais belos e importantes de toda a Escritura; contém mensagens preciosas para todos os responsáveis de empresa, instituição ou comunidade, de ontem, hoje e amanhã.

Havia duas categorias de dirigentes nos campos de trabalho: os "inspetores" e os "capatazes". As diferentes reações de cada uma destas categorias perante a ordem do faraó de endurecer as condições de trabalho do povo oprimido – reações opostas, mesmo – ilustram duas diferentes e opostas culturas da responsabilidade e direção. As novas condições de trabalho e produção impostas pelo faraó (fabricar a mesma quantidade de tijolos de antes, mas sem ter à disposição a palha) não podiam ser satisfeitas por trabalhadores já submetidos a condições extremas (1,14). Foi isso mesmo que aconteceu (5,14).

Os inspetores – egípcios às ordens do faraó – reagiram ao não cumprimento dos objetivos de produção, descarregando nos capatazes dos campos de trabalho – hebreus, irmãos dos trabalhadores: «Chegaram a chicotear os capatazes dos israelitas nomeados pelos inspetores do faraó, dizendo-lhes: "Porque não completaram, nem ontem nem hoje, a quantidade de tijolos que faziam antes?"» (5,14).

Por seu lado, os capatazes não bateram nos trabalhadores das suas equipas. Como as parteiras do Egito, também estes responsáveis de trabalhadores – por opção livre e custosa – escolheram ficar do lado do povo e da verdade, e não obedeceram às ordens do faraó. Escolheram ser irmãos dos oprimidos e assim partilharam a sua sorte. Então, em vez de se enfurecerem com os companheiros, foram protestar com o faraó: «Porque procedes assim com os teus servos? Já não nos fornecem palha e, no entanto, exigem-nos que fabriquemos os mesmos tijolos e chicoteiam estes teus servos. A culpa é do teu povo!» (5,15-16). Tal como sucede ainda demasiado frequentemente, perante este protesto leal dos capatazes, o faraó limitou-se a associá-los à mandriice dos trabalhadores: «Vocês são uns preguiçosos! Sim, uns preguiçosos! Por isso é que andam a dizer: "Queremos ir oferecer sacrifícios ao Senhor". Vão mas é trabalhar!» (5,17-18). Então, «os capatazes reconheceram que estavam numa situação difícil» (5,19).

É a «situação difícil» em que muitas vezes se encontra quem rejeita ordens dos poderosos por lealdade para com os fracos; e é por aqueles acusado de também ele ser incompetente e preguiçoso. Quem não estiver disposto a correr o risco de ser associado ao vício que os chefes atribuem às pessoas que representa e defende, não pode ser mediador; um dirigente nunca será bom "capataz" se não estiver disposto a correr o risco de ser "espancado" com e como a sua equipa de trabalho. Fora desta lógica solidária e responsável, fica o mercenário; ao contrário do "bom pastor", não dá a vida pelo rebanho, não partilha a sua sorte. Além do mais, tomar sobre si as "pauladas" sem as descarregar em quem lhe está confiado, é também uma grande e bela imagem de qualquer verdadeira vocação de paternidade, natural ou espiritual.

Nem o insucesso do protesto ao faraó fez alterar a atitude dos capatazes. Continuaram a exercitar a sua lealdade para com os trabalhadores, enfrentando diretamente Moisés e Aarão. Dirigiram-lhes palavras fortes: «Vocês é que têm a culpa de o faraó e os seus funcionários nos verem com maus olhos. Puseram nas suas mãos a espada com que eles nos vão matar» (5,21).

Moisés tomou muito a sério o grito duro e leal dos capatazes e enfrentou a primeira crise da sua missão no Egito. Depois de escutar esse grito teve um novo encontro com a voz que o tinha chamado. A lealdade custosa e fraterna dos chefes de equipa produziu uma nova teofania, um novo encontro com o seu Deus, uma nova vocação: «Moisés dirigiu-se a Deus e disse: "Ó meu Senhor, porque tratas mal este povo? Porque me enviaste?"» (5,22). E Deus falou-lhe, chamou-o novamente: «Eu sou o Senhor [...]. Levar-vos-ei ao país que prometi a Abraão, Isaac e Jacob e dar-vos-ei essa terra para ser vossa. Eu sou o Senhor» (6,1-8).

Não se pode imaginar a vastidão do alcance de um ato de lealdade verdadeira, que poderá acontecer quando nos "campos" onde trabalhamos somos capazes de não obedecer a ordens erradas de faraós e nos mantemos fieis à verdade e à dignidade de quem connosco trabalha. Por vezes esta fidelidade pode escancarar o teto do escritório ou da nave industrial onde trabalhamos; pode fazer de novo despontar no céu o arco-íris de Noé. Esta lealdade permite que entre dirigentes e trabalhadores se gere uma relação por alguns chamada fraternidade; quando nasce de uma lealdade silenciosa e custosa não tem qualquer laivo moralista e retórico. Tornamo-nos verdadeiramente irmãos e irmãs de quem depende de nós quando oferecemos as costas e nos entrepomos entre eles e as ordens erradas dos faraós.

Se os capatazes não tivessem levado até ao fim o processo de protesto leal, se – por medo ou respeito – tivessem parado um passo só antes de encararem Moisés e Aarão, não teriam reaberto o céu e o Senhor não teria renovado a promessa. Muitos atos de verdadeira lealdade não chegam a produzir todos os frutos porque o processo não é levado até ao fim.

O desafio mais difícil de ultrapassar por quem responde a uma vocação e aceita desempenhar uma tarefa de libertação é continuar a acreditar na verdade da vocação, da tarefa que recebeu, da promessa e da voz, quando vê que aumenta o sofrimento dos que era suposto amar e libertar; quando o povo a tirar dos trabalhos forçados piora a sua condição e a dor inocente cresce. Só é possível sair destas provas – sempre muito dolorosas e que surgem (embora não exclusivamente) nas primeiras fases do processo de libertação – e retomar o caminho se de novo acontecer o primeiro milagre do monte Horeb, se uma vez mais nos ouvirmos chamar pelo nome. Um milagre que nos pode ser doado pela lealdade de alguém; pelo seu amor ou pelo seu protesto que frequentemente coincidem.

Nas empresas e organizações continuam a coexistir lado a lado "inspetores" e "capatazes". Dirigentes que "batem" em quem está abaixo deles, prontos a tudo para corresponder a qualquer exigência dos patrões, e responsáveis que preferem "apanhar" para não quebrar a lealdade para com os companheiros. Muitos começam como capatazes e transformam-se depois (por desilusão ou por infelicidade, talvez) em inspetores; mas não é raro que se dê também o processo inverso. Todos nós assistimos a isso, todos os dias. Mas não esqueçamos que muitos trabalhadores não morrem sob o peso de uma produção impossível de tijolos porque entre nós há muitos herdeiros dos leais capatazes do Egito: são certamente mais de quantos somos capazes de reconhecer à nossa volta.

 

Luigino Bruni
In "Avvenire"
Trad.: José Alberto Bacelar Ferreira, P. José Bacelar
Publicado em 04.02.2015

 

 
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No livro do Êxodo encontra-se também o primeiro protesto dos "dirigentes" de que fala a Bíblia, o protesto dos "capatazes". Trata-se de um dos protestos mais belos e importantes de toda a Escritura; contém mensagens preciosas para todos os responsáveis de empresa, instituição ou comunidade, de ontem, hoje e amanhã
Não se pode imaginar a vastidão do alcance de um ato de lealdade verdadeira, que poderá acontecer quando nos "campos" onde trabalhamos somos capazes de não obedecer a ordens erradas de faraós e nos mantemos fieis à verdade e à dignidade de quem connosco trabalha
A lealdade permite que entre dirigentes e trabalhadores se gere uma relação por alguns chamada fraternidade; quando nasce de uma lealdade silenciosa e custosa não tem qualquer laivo moralista e retórico. Tornamo-nos verdadeiramente irmãos e irmãs de quem depende de nós quando oferecemos as costas e nos entrepomos entre eles e as ordens erradas dos faraós
O desafio mais difícil de ultrapassar por quem responde a uma vocação e aceita desempenhar uma tarefa de libertação é continuar a acreditar na verdade da vocação, da tarefa que recebeu, da promessa e da voz, quando vê que aumenta o sofrimento dos que era suposto amar e libertar
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