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Documentário: “A ilha dos monges”

Documentário: “A ilha dos monges”

Imagem D.R.

Intitulado originalmente “O regresso dos monges a Schiermonnikoog”, este documentário realizado para a televisão holandesa por Anne Christine Girardot aborda, em perspetiva testemunhal, o dinamismo de uma Igreja em saída.

A ideia do filme surgiu de um anúncio: os religiosos do mosteiro de Sion, nos Países Baixos, puseram à venda o seu mosteiro. O grande edifício, que noutros tempos tinha albergado 150 monges, estava agora ocupado por uma comunidade de oito trapenses de observância estrita.

A cineasta interessou-se pelas circunstâncias dos monges, incapazes de manter a estrutura do grande mosteiro, partindo daí para filmar a clausura monástica na sua nova peregrinação.

Em vez de esperar pela morte do último religioso, os trapistas quiseram aprofundar a sua relação com Deus desde as origens da comunidade, e nesse sentido propuseram-se voltar à “ilha dos monges cinzentos”.

Schiermonnikoog é a ilha mais pequena da Holanda. Com um comprimento de 16 km e largura de quatro, recebe o seu nome da comunidade de monges cistercienses que foi proprietária do enclave.

Esta Igreja em saída exigiu para os monges desacomodarem-se do seu velho mosteiro e regressarem à vida “normal”, ainda que transitoriamente, para preparar a construção do novo pequeno edifício.

O processo é acompanhado pela câmara, diante da qual os religiosos partilham as suas motivações profundas. Que sentido tem ser monge no século XXI? O que se faz num mosteiro?



Uma das metáforas mais utilizadas no documentário é a do farol: «É uma construção que está quieta e erguida, mantém-se firme com o passar dos anos a produz luz para orientar quem queira olhar para ele. É o mesmo que fazem os monges



A nova etapa requereu uma mudança importante nas suas vidas, sair do silêncio para voltar ao ruído, comprar no supermercado em vez de viver do que a terra dá, entrar no autocarro em vez de caminhar pausadamente.

Esta “transumância”, contudo, estabeleceu uma nova etapa espiritual, na qual voltar às raízes supõe uma provocação para as novas gerações.

«Aquando do seu testemunho, um dos monges diz explicitamente: “Não temos nenhuma utilidade, a nossa única razão de existir é ser presença de Deus no mundo”. Parece-me um contraste precioso com o nosso mundo de consumo, em que medimos e comparamos tudo, desde os “likes” no Facebook até quanto ganhas no trabalho», declarou Anne Christine Girardot.

Uma das metáforas mais utilizadas no documentário é a do farol: «É uma construção que está quieta e erguida, mantém-se firme com o passar dos anos a produz luz para orientar quem queira olhar para ele. É o mesmo que fazem os monges: o mundo muda, mas eles permanecem, para que quem se cruze com eles experimente algo da luz e do amor de Deus».

A realizadora recorda o encontro com a comunidade, depois de muito tempo à espera de uma resposta à sua proposta para acompanhar o processo: «Foi um processo longo, de muitos meses».



São pessoas normais, como tu e eu, que embarcaram numa aventura apaixonante com Deus, mas continuam a ter as suas quedas e falhas, dúvidas e emoções. Ver a humanidade que há em cada um deles parece-me, também, do mais bonito no filme



«Alguns abriram o coração antes que outros, creio que lhes agradava que alguém do exterior se interessasse pelas suas histórias pessoais. Outros tardaram mais, precisaram de mais tempo para me deixar entrar na sua intimidade, mas no final conseguimos que nos dessem a sua confiança. Essa é a base de um documentário autêntico», sublinha.

Um dos testemunhos que mais sensibilizou Anne Christine Girardot foi o do ex-“punk”, por ser alguém «à procura»: «Uma pessoa sem nada a ver com Deus nem a religião – pensava que a fé era para os fracos –, mas que se sentia incapaz de amar os outros e a si mesmo. E agora é o mais místico de todos. Ele conta que o coração do que significa ser monge é deixar-se levar por Deus, contemplá-lo, e emociona-se».

«Temos a ideia preconcebida de que os monges, pelo simples facto de o serem, já são santos e perfeitos, e não é assim. São pessoas normais, como tu e eu, que embarcaram numa aventura apaixonante com Deus, mas continuam a ter as suas quedas e falhas, dúvidas e emoções. Ver a humanidade que há em cada um deles parece-me, também, do mais bonito no filme», aponta.

Após a exibição do filme na Holanda, não foram poucos os espetadores que se dirigiram a Christine Girardot para lhe dizer: «Não sou crente e não entendo o modo de vida destes monges, mas entendo as suas emoções e a sua procura».

Formada na Colômbia e EUA, a cineasta, que tem uma tia carmelita, é detentora de um longo percurso na produção de programas televisivos e entrevistas. A par da vida familiar – tem quatro filhos – vive a fé acompanhando, voluntariamente, doentes terminais.

Com este documentário, a realizadora francesa quis revelar uma história de coragem espiritual, de desafio comunitário e de proposta alternativa num mundo que se esvazia de fé. A vida destes monges e a intenção da cineasta constituem o testemunho de uma Igreja em saída.









 

P. Peio Sánchez, Guillermo Altarriba
Fontes: "Periodista Digital", "Cinemanet"
Trad. / edição: SNPC
Publicado em 11.12.2017

 

 
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