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Leitura: “A Igreja católica e o comunismo”

Imagem D.R.

Leitura: “A Igreja católica e o comunismo”

O papa Francisco encontrou-se na quarta-feira, duranta a audiência-geral que realiza semanalmente no Vaticano, com o padre albanês Ernest Simoni, que passou 28 anos na prisão, de 1963 a 1990, perseguido pelo regime comunista de Tirana.

A figura do padre Simoni é o paradigma de uma heroica perseverança dos cristãos que chegaram a enfrentar o martírio para não abdicar da sua fé. Pelo mesmo género de experiência passou o arcebispo eslovaco Cyril Vasil, atual secretário da Congregação para as Igrejas Orientais.

O prelado interveio esta quinta-feira na Pontifícia Universidade Gregoriana, por ocasião da apresentação do livro “A Igreja católica e o comunismo na Europa Centro-Oriental e na União Soviética” (ed. Gabrielli, Itália, 797 pp., 48 €), organizado pelo padre Jan Mikrut, professor na instituição, que coordenou uma equipa composta por 17 investigadores.

Filho de um sacerdote da Igreja greco-católica eslovaca, D. Vasil conheceu os sofrimentos da perseguição comunista, que na então Checoslováquia teve o seu auge em 1950, com a supressão de todas as ordens religiosas. Sobre ele pendeu uma condenação de dois anos de prisão, que caiu ao mesmo tempo que a queda do regime, em 1989.

Também o padre checo Tomás Halík, que estará em Portugal a 2 de maio no Porto e em Braga, e no dia seguinte em Coimbra e Lisboa, para conferências e uma sessão de autógrafos, é testemunha do silenciamento imposto pelos comunistas.

As imagens do sofrimento causadas pela repressão religiosa continuam bem vivas no arcebispo Vasil, para quem esses acontecimentos são percecionados de modo mais suave quando comparados com o nazismo, mesmo sabendo «que o comunismo causou mais vítimas e mostrou uma maior eficácia totalitária, sendo vivido durante mais tempo».

Para o prelado, esta diferença de avaliação explica-se com o facto de que «em alguns ambientes influentes subsistirem ainda certos rasgos ideológicos», pelo que a «história ainda se cruza com o presente».

Uma história que remonta ao fim da II Guerra Mundial e à repartição das zonas de influência decididas pelos vencedores na Conferência de Ialta. Desde logo, afirmou D. Valil na conferência de imprensa de apresentação do livro, os regimes comunistas começaram a classificar a Igreja católica de inimiga, enquanto «representante da fé, que supera a dimensão exclusivamente material do homem».

Nesse contexto, o padre era uma figura particularmente indesejada: na sua génese, os votos que professa na ordenação são inconciliáveis com a pertença a um regime totalitário, sobretudo o de obediência a Deus, mas também o de castidade, que desvincula dos laços familiares, e o de pobreza.

A ação dos regimes comunistas no Centro e Leste da Europa seguia um guião comum. Primeiro, apresentava-se a Igreja como expressão da burguesia que se enriquecia às custas do povo, bem como aliada dos países que visavam invadir o bloco comunista.

Este plano era executado através da «ocupação dos meios de comunicação e dos meios de produção», ao mesmo tempo que à Igreja era negada a possibilidade de comunicar livremente.

«Havia depois um aspeto exterior desta perseguição, que era a limitação do culto». Este condicionamento decorria de maneira subtil, «através de ações de intimidação do clero, favorecendo eclesiásticos menos capazes ou mais coniventes, infiltrando agentes secretos».

A ferida continua aberta: «Que relação deve existir entre a justiça histórica e o perdão?». Dado que «uma sincera admissão de culpa, na perceção comum do povo, não ocorreu nem na Europa ocidental nem nos países protagonistas desses acontecimentos», não existem os pressupostos «para um verdadeiro perdão», considerou D. Cyril Vasil.

«As filosofias que declararam a total autonomia do homem e a sua presumível capacidade de alcançar ideais absolutos, ou em nome de uma classe social ou em nome de uma pertença racial, conduziram a humanidade à beira do abismo», vincou o arcebispo, acrescentando que esses riscos continuam vivos, já que não faltam «tentativas de alterar a antropologia por meio da eutanásia e da eugenia».

Para o reitor da Universidade Gregoriana, a lembrança do comunismo que habitou a Europa de Leste até há 25 anos deve ser mantida: «Devemos ter no coração a memória daqueles que viveram esse período obscuro, onde os valores humanos e os direitos humanos foram pisados por regimes totalitários sob o bloco soviético».

«Os cristãos que viveram esse período, naquelas regiões, demonstraram-nos o que significa resistir. São precisas força e coragem para viver na verdade, e isso nós devemos ter presente», sublinhou o padre François-Xavier Dumortier.

A Igreja católica e, em parte, a ortodoxa, foram atingidas pela supressão de ordens religiosas, conventos, mosteiros e paróquias através do confisco de bens e da prisão de muitos religiosos, até a «reduzir a uma situação catacumbal. A Igreja do silêncio».

 

Rui Jorge Martins
Com Agência Zenit, Il Messaggero
Publicado em 22.04.2016

 

 

 
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Uma história que remonta ao fim da II Guerra Mundial e à repartição das zonas de influência decididas pelos vencedores na Conferência de Ialta. Desde logo, os regimes comunistas começaram a classificar a Igreja católica de inimiga, enquanto «representante da fé, que supera a dimensão exclusivamente material do homem»
A ação dos regimes comunistas no Centro e Leste da Europa seguia um guião comum. Primeiro, apresentava-se a Igreja como expressão da burguesia que se enriquecia às custas do povo, bem como aliada dos países que visavam invadir o bloco comunista
Para o reitor da Universidade Gregoriana, a lembrança do comunismo que habitou a Europa de Leste até há 25 anos deve ser mantida: «Devemos ter no coração a memória daqueles que viveram esse período obscuro, onde os valores humanos e os direitos humanos foram pisados por regimes totalitários sob o bloco soviético»
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