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Leitura: "A ética do quotidiano"

Leitura: "A ética do quotidiano"

Imagem Capa | D.R.

«O tema da ética inquieta a todos. Uns, dotados de profundo senso humano, sentem-se mal numa sociedade em que se violam os valores básicos, ampla e facilmente. Outros percebem que as práticas contra o Bem estão a gerar, para si e para a sociedade, efeitos deletérios. A ética ocupa lugar de relevo na fala e na escrita. Bom sinal.»

É este o contexto do livro "A ética do quotidiano", obra póstuma do teólogo brasileiro João Batista Libânio, que constitui uma das recentes novidades da Paulinas Editora lançadas em Portugal, de que revelamos um excerto.

No primeiro capítulo, «As questões sobre a vida", analisa-se, entre outros temas, a bioética, o genoma humana, a vida na sua origem, risco e aviltamento, a ciência e o prazer.

"A Ecologia" ocupa a segunda parte, contemplando questões como a crise energética e as catástrofes, seguindo-se "A ética e o cuidado", abordando o perdão, a lógica do bem, a beleza, os desejos e o tempo.

Na quarta parte fala-se da "Educação da ética", atendendo-se, por exemplo, às crianças e aos adolescentes, às avaliações, às férias, à libertação e à cidadania, e por fim, "A ética e o mundo da informação", o autor jesuíta detém-se na internet, jornalismo, televisões e a liberdade e limites de expressão. Os cinco capítulos terminam com pistas de reflexão lançadas ao leitor.



A cultura, como conjunto de símbolos, comportamentos, instituições, valores e desvalores [contravalores], permite-nos viver em sociedade e impregna-nos também de muitos males. E a ética, como ciência, e a cultura chocam-se em não poucos pontos



João Batista Libânio
In "A ética do quotidiano"

Práxis e cultura

A ética faz parte da vida, da práxis das pessoas. Interpõe-se entre a necessidade de agir, o que é próprio de todo ser vivo, e a nossa natureza racional. E encravada nela há o sentimento de bondade, de beleza, de verdade. Por mais que o ser humano se perverta, não consegue apagar totalmente a luz de bem que irradia do seu ser, criado pelo Eterno e Infinito Bem. Todo o artífice marca a sua obra. E o Criador divino não deixou por menos. As pegadas divinas no nosso coração provocam-nos aquela inquietude de que fala Santo Agostinho, e que só descansa em Deus.

«Senhor, Tu és grande e digno de todo o louvor. Grande é a tua virtude e a tua sabedoria não tem limites. Quer o homem louvar-te, ele que é uma parte da tua criação [...]: e contudo quer louvar-te o homem que é uma parte da tua criação. És Tu que fazes com que ele se delicie em louvar-te, porque Tu nos fizeste para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em ti» ("Confissões", I, 1, 1).

E até lá?

A vida humana, até lá, transforma-se num misto de acertos e erros, de caminhos e descaminhos, de bondade e maldade. E como conseguimos distinguir tais ações? Funciona o senso ético do ser humano em contextos socioculturais ambíguos. E ele traça paulatinamente normas éticas e, perante elas, julga-se a si próprio e aos outros. No entanto, surgem dúvidas, posições diferentes, suspeitas de interesses esquivos e maldades camufladas. A razão apura a sua capacidade crítica. E elabora a ética como ciência. O espaço da discussão adquire um nível superior. Buscam-se consensos, clareza e justeza nos juízos.



Sem dúvida, hoje, o maior empecilho para a ética diária encontra-se no individualismo açulado pelo sistema capitalista. Está na origem de muita perversidade. E só o movimento cultural oposto de solidariedade, de convivência, de respeito para com as pessoas e para com a natureza tem possibilidade de impregnar a cultura com uma outra ética



Ao longo dos séculos, filósofos, pensadores, humanistas debruçaram-se sobre essa ciência para munir a sociedade de princípios normativos que a conduzam ao seu bem, a uma melhor convivência, a maior felicidade das pessoas.

Entretanto, não se percorre tal via sem problemas nem dificuldades. O ser humano, além do lado luminoso que lhe permite criar a ética do bem, participa de uma certa maldade profunda. A sua origem provocou explicações diferentes, como a existência de um princípio do mal (maniqueísmo) ou uma falta original que fez história nas ações humanas (tradição bíblica). Em todos os casos, a evidência da existência do mal não permite cegueira nem ingenuidade. A cultura, como conjunto de símbolos, comportamentos, instituições, valores e desvalores [contravalores], permite-nos viver em sociedade e impregna-nos também de muitos males. E a ética, como ciência, e a cultura chocam-se em não poucos pontos.

Então abre-se o caminho de transformação da cultura por meio dos recursos de que dispomos, na linha de assimilar, veicular e facilitar às pessoas a vivência da ética do bem, da convivência. E, sem dúvida, hoje, o maior empecilho para a ética diária encontra-se no individualismo açulado pelo sistema capitalista. Está na origem de muita perversidade. E só o movimento cultural oposto de solidariedade, de convivência, de respeito para com as pessoas e para com a natureza tem possibilidade de impregnar a cultura com uma outra ética.

À medida que a cultura assimila os valores éticos, as pessoas agem mais facilmente segundo eles. E, por sua vez, impregnam, com a sua práxis, a cultura, eticamente. Então, a reflexão ética percebe a relação que existe entre práxis e cultura, aprofundando o conúbio de bem entre ambas e, ainda, criticando a mútua contaminação.



Gestos piedosos de ajuda aos pobres, feitos por proprietários de terra ou de fábricas, perdiam a aura beneficente, para serem confrontados com a relação de trabalho que se estabelecia com os trabalhadores. Que significa oferecer um cabaz de Natal, no fim do ano, se a relação salarial do resto do ano reflete uma verdadeira exploração e injustiça?



A teologia da libertação deteve-se atentamente sobre o encontro da práxis e da cultura. Levantou suspeitas perspicazes de que a cultura moderna penetra o sistema capitalista, aliena as pessoas em relação à própria práxis. Deste modo, elas não se dão conta do real efeito das próprias  ações.

Por influência de uma certa espiritualidade tradicional, que considerava quase unicamente a intenção subjetiva para valorar a práxis, no meio religioso reinou uma dolorosa alienação. A apodítica frase de Karl Marx de que «a religião é o ópio do povo» visava levar a que se analisasse melhor a práxis religiosa no que ela efetivamente é. Ao assumir o conceito de práxis, como ação que influencia as relações sociais, políticas, económicas e culturais da sociedade, rompia com a perspetiva religiosa de vê-la unicamente sob o ângulo da motivação das pessoas. Assim, gestos piedosos de ajuda aos pobres, feitos por proprietários de terra ou de fábricas, perdiam a aura beneficente, para serem confrontados com a relação de trabalho que se estabelecia com os trabalhadores. Que significa oferecer um cabaz de Natal, no fim do ano, se a relação salarial do resto do ano reflete uma verdadeira exploração e injustiça?

A ética, ao assumir a categoria de práxis, encontrou luzes para melhor definir o agir humano, distinguindo-o da boa vontade afetiva, que não implica transformar a realidade. Na perspetiva da teologia da libertação, dá-se um passo adiante, pois a práxis interpreta-se a partir da relação de dominação e libertação das classes dominadas. A ética orienta-se pela práxis libertadora, e só assim as ações adquirem uma qualidade positiva.



Se há unanimidade quanto ao desejo humano de felicidade, a mesma não ocorre respetivamente ao como consegui-la, como vivê-la, como realmente ser feliz. E, nesse momento, surgem dúvidas, confusões, propostas muito diferentes



Ética e felicidade

Poucas verdades gozam de tamanho consenso, como o desejo universal de felicidade. Santo Agostinho escreveu uma pequena joia sobre a vida feliz em forma de diálogo,
onde nos fala da felicidade:

«Então voltei a falar:
– Todos queremos ser felizes?
Mal disse estas palavras, fez-se ouvir uma só voz de unanimidade.
– Parece-vos – perguntei – ser feliz quem não tem o que quer?
Todos responderam negativamente.
– Será então feliz quem tem o que quer?
A nossa mãe disse então:
– Se for o bem e o alcança, é feliz; se, por outro lado, quer coisas más, ainda que as tenha, é infeliz.
– Mãe, alcançaste por completo o próprio refúgio da filosofia – disse eu, sorrindo e cheio de satisfação» ("De beata vita", II, 10).

Pascal ousou ir mais longe.

«Todos os homens procuram ser felizes, sem exceções... É esse o motivo de todas as ações de todos os homens, inclusive dos que vão se enforcar» (1962: 97).

Mesmo em tais casos extremos em que se busca a morte, observa Comte-Sponville:

«escapar da infelicidade é aproximar-se ainda, pelo menos tanto quanto possível, de uma certa felicidade, nem que seja negativa ou o próprio nada» (2001: 23s).

González-Carvajal cita o filósofo Javier Sádaba, que afirma apodícticamente:

«Entendo por moral a ideia de que se tem de ser feliz e que não está dito como [...] «Vive feliz!» é o único imperativo categórico (1992: 164).



A antropologia espiritualista, que afirma a dimensão transcendente do ser humano, não aceita a ética hedonista, sensualista. Advoga outra via para a felicidade. É uma ética que se pauta pelo bem, pela verdade, pela estética. O enfoque modifica-se. A pergunta básica seria: qual é o bem, a verdade, a beleza que realiza o ser humano?



O que é que a ética diz sobre esta realidade humana? Quanto ao desejo universal de felicidade, não há nada que contrarie a razão humana, antes, pelo contrário, lhe responde a busca fundamental. O eudemonismo, que etimologicamente significa «bom espírito» e pode ser traduzido como felicidade, constitui, sem dúvida, um princípio ético
de vida.

Se há unanimidade quanto ao desejo humano de felicidade, a mesma não ocorre respetivamente ao como consegui-la, como vivê-la, como realmente ser feliz. E, nesse momento, surgem dúvidas, confusões, propostas muito diferentes. Vale aqui a frase irónica de Santo Agostinho acerca do tempo: «Se ninguém mo pergunta, sei o que é; mas se quero explicá-lo a quem mo pergunta, não sei» ("Confissões", XI, 14, 17).

Assim se multiplica ao infinito o receituário para a felicidade, porque, no fundo, todos julgam saber o que é a felicidade, mas desconhecem os passos seguros para tal meta.

O caminho da ética, no campo da felicidade, passa pela conceção do ser humano. Parte-se daí. O divisor de águas separa duas vertentes fundamentais: o ser humano reduz-se, em última análise, a um ser biológico, sensitivo; ou ele possui uma dimensão espiritual transcendente. No primeiro caso, dispensa-se a ética, porque os sentidos já têm regras definidas e fixadas pelos instintos da natureza e não necessitam de ulterior reflexão. Os sentidos do ser humano existem para o prazer imediato, como nos animais.

Aperfeiçoam-se, mas não transcendem. Por isso a ética hedonista ou epicurista, na aceção estrita do termo, define-se pela moderação que permite aos sentidos usufruírem o máximo de tempo do prazer, pois ele destrói-se pelo excesso. Voltar-se-iam contra si mesmos. O que o animal, em geral, não faz, porque os instintos cumprem função de freio, o ser humano pode fazê-lo pelo uso da inteligência, intensificando os prazeres sensitivos, mesmo até à morte. Alguém comentava ironicamente a vida de um "playboy" famoso: entrega-se tanto ao vício, enquanto não lhe deteriore a saúde; e não poupa tanto a saúde, enquanto não goze do vício. Equilíbrio entre vício e saúde.



O ser humano lidou com o prazer, ao longo da história, não sem dificuldade. E o Cristianismo, em particular, viveu situações paradoxais. A ética elabora-se em contextos culturais determinados; e em muitos, entrou em conflito diretamente com o prazer por dois lados, tanto pelo da busca como pelo da rejeição. Ambos vistos como problema ético



A antropologia espiritualista, que afirma a dimensão transcendente do ser humano, não aceita a ética hedonista, sensualista. Advoga outra via para a felicidade. É uma ética que se pauta pelo bem, pela verdade, pela estética. O enfoque modifica-se. A pergunta básica seria: qual é o bem, a verdade, a beleza que realiza o ser humano? Buscá-los e vivê-los corresponde à sua natureza mais profunda e, portanto, condiz com o projeto ético básico.

São Tomás, na esteira da filosofia grega e no interior da tradição cristã, citando Santo Agostinho, aponta a Verdade suprema e o Bem último como fontes de felicidade e como critério de ética.

«Só Deus é a bem-aventurança, porque só é bem-aventurado alguém que conheça Deus, conforme as palavras de Santo Agostinho: «Bem-aventurado aquele que te conhece, ainda que ignore tudo o mais» ("Summa Theologiae", I, q. 26 a. 3c).

Porém, resta-nos ainda a tarefa de discernir, nas pequenas realidades da vida, quais encarnam algo desta Verdade e deste Bem, para nos conduzirem pela via reta da felicidade. E a sabedoria dos filósofos e dos maiores tem muito a dizer-nos. Lá encontramos a fonte fecunda de conhecimento e experiência.

A ética da vida facilita-nos a descoberta da felicidade. Ela percebe que, no cuidado de si e dos outros, no fundo, esbarramos na Verdade suprema e no Bem último, que nos habitam e se tornam fonte de felicidade para nós, e nós, causa de felicidade para os outros.

Em íntima relação com a felicidade está o tema do prazer.



A ética interfere no momento em que a busca de prazer pelos sentidos choca com a perceção da inteligência de que a satisfação sensitiva contradiz algum valor de bem e de verdade. Saborear uma bebida responde ao sentido do gosto; mas quando ela põe em risco a própria saúde ou desencadeia comportamentos agressivos e perigosos para os outros, a ética racional impõe limites ao prazer do gosto



A ética e o prazer

O ser humano lidou com o prazer, ao longo da história, não sem dificuldade. E o Cristianismo, em particular, viveu situações paradoxais. A ética elabora-se em contextos culturais determinados; e em muitos, entrou em conflito diretamente com o prazer por dois lados, tanto pelo da busca como pelo da rejeição. Ambos vistos como problema ético.

Onde se situa o fiel da balança? A primeira constatação antropológica diz-nos que o ser humano está dotado de sentidos externos e internos. Os sentidos orientam-se, pela sua natureza, para o prazer. A ninguém, em são juízo, ocorre castigá-los contínua e duramente. Que diríamos se alguém embebesse o lenço em ácido sulfídrico e ficasse a cheirá-lo? Ou se se deliciasse com feijão azedo? Ou acariciasse ternamente um cato? Ou se se deliciasse ainda a ver cenas horrendas? Ou, enfim, se repousasse ao som estridente de serras elétricas ou de britadeiras? Estaria a enlouquecer. Pois os sentidos pedem prazer e, quando atormentados, buscam alívio.

Rubem Alves vê no ato criativo de Deus a expressão da bondade. E dessa afirmação tira duas consequências sobre os sentidos e o prazer:

«Primeira conclusão: foi Deus que fez este festival de possibilidades de prazer.
Segunda conclusão: se Deus criou tantos jeitos de ter prazer, é porque Ele nos destina ao prazer» (1994: 31s).



A grande pergunta parece ser: o que é que acontece quando o ser humano faz tabula rasa do passado para promover um homem do prazer infinito? Pode uma sociedade viver sem nenhuma proibição, apenas do gozo?



Nessa perspetiva, entende-se o vigoroso progresso da indústria farmacêutica na produção de analgésicos, psicotrópicos, sedativos, calmantes ou antidepressivos para afastar as dores físicas e psíquicas. À mínima dor, recorre-se a um relaxante muscular e analgésico. Caminhamos para uma cultura que rejeita a dor e luta para reduzi-la ao máximo.

Porque é que, então, a ética esbarra criticamente com o hedonismo, centrado no prazer? A resposta implica outra consideração antropológica. O ser humano não se reduz à vida sensitiva. Distingue-se do animal, este, sim, confinado aos instintos sensíveis. Ele é dotado de inteligência, vontade, liberdade, consciência. A inteligência busca a verdade, a vontade orienta-se para e pelo bem. A liberdade decide sobre a totalidade do existir, segundo a verdade e o bem. E então tornamo-nos conscientes de que a vida dos sentidos não responde pela última instância da existência.

A ética interfere no momento em que a busca de prazer pelos sentidos choca com a perceção da inteligência de que a satisfação sensitiva contradiz algum valor de bem e de verdade. Saborear uma bebida responde ao sentido do gosto; mas quando ela põe em risco a própria saúde ou desencadeia comportamentos agressivos e perigosos para os outros, a ética racional impõe limites ao prazer do gosto. Por isso entende-se que o Estado legisle seriamente sobre a interdição da bebida alcoólica para quem vai conduzir. Não se trata de limitar o prazer da bebida, mas de evitar que a bebida provoque malefícios a si e a outros em acidentes de trânsito.

Os banquetes pantagruélicos caem também sob o juízo ético. E porquê? O corpo humano conhece regras de equilíbrio da saúde e da dignidade que o comer deve respeitar sem excessos. Além disso, o ser humano vive em sociedade, e os excessos absurdos no comer e no beber degradam as relações humanas. O princípio ético fundamental reza assim: age de maneira a que o teu comportamento ajude à convivência humana. As bacanais romanas corroeram os valores da sociedade e arruinaram-na. A ética deve proteger a vida humana em todos os aspetos.



A prostituição é considerada, por muitos países, um meio de desenvolvimento económico, o que várias organizações internacionais reforçam. Assim, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial incentivam os governos dos países capitalistas periféricos a desenvolverem a sua indústria do turismo e do entretenimento, junto dessas organizações, como importante fonte de divisas para o pagamento da dívida contraída



Em relação ao prazer, a ética estoica já tinha sinalizado o caminho da moderação. Em contraste com o mundo dionisíaco do exagero, ela apontava a atitude apolínea do equilíbrio. O axioma latino "in medio stat virtus" poderia ser traduzido como «a ética está no meio», entre os extremos nocivos da busca do prazer, como da sua doentia negação.

A ética na batalha pela vida humana insere o prazer na linha da sua promoção, de a tornar mais feliz, e nunca de degradá-la, de lhe destruir a dignidade e de causar danos a terceiros. Jean-Claude Guillebaud, ao analisar o momento atual, ousou falar de verdadeira tirania do prazer. Observa-lhe o contrassenso, ao proclamar a incontrolável libertação do desejo. Os jovens franceses do Maio de 1968 afirmavam de maneira expressiva: «É proibido proibir!» Com isso, rejeitouse a ordem antiga e a sua moral, diz-se adeus às proibições, permitindo um gozo sem entraves e sem lei. Soava a uma bela utopia, continua Guillebaud, mas «o erro foi julgar que ela não teria consequências» (1999: 68). O prazer tirânico domina a totalidade do ser humano e avilta-o com efeitos deletérios. A grande pergunta parece ser: o que é que acontece quando o ser humano faz tabula rasa do passado para promover um homem do prazer infinito? Pode uma sociedade viver sem nenhuma proibição, apenas do gozo? (cf. ibid., 80s).

Este mesmo autor percebe o paradoxo, se não o antagonismo, de uma sociedade que sonha com a rejeição das proibições, mas, ao mesmo tempo, lança-se na proteção dos direitos humanos (cf. ibid., 81). Esquece-se de que a ordem, com as proibições, não significa sem mais repressão, mas ordem de valores interiorizados, sem os quais a convivência humana se torna impossível (cf. ibid., 101).

Quanto ao prazer, o atual sistema capitalista neoliberal procede ambiguamente. Nos EUA, surgiu um movimento moral neoconservador com o intuito de recuperar as funções tradicionais da religião. Neste caso, comenta Mardones, a religião converte-se numa técnica terapêutico-social. Recorre-se à religião para salvar o sistema capitalista, já que ela sustenta, em última análise, a sociedade cristã burguesa (1986: 328).



A ética e a vida: dois temas centrais da existência humana. Não há verdadeira vida humana, se não se constrói a ética para a defender e cultivar. Não há ética, se a vida humana não constitui um valor fundamental. Tal relação vale desde os inícios da vida até o fim



Por outro lado, existe a indústria do sexo, altamente rentável. Senão veja-se a quantidade de revistas pornográficas, os "sex shops" e as inúmeras ofertas no campo sexual em termos de filmes, programas, "sites", etc. A expressão «indústria do sexo» é utilizada para se referir às empresas que fornecem produtos ou serviços considerados eróticos, com algum nível de relação com a prática do ato sexual.

Poulin publicou uma estarrecedora entrevista onde afirmou:

«Ela [indústria do sexo] constitui 5% do produto interno bruto da Holanda, 4,5% na Coreia do Sul, 3% no Japão e, em 1998, a prostituição representava de 2% a 14% do total das atividades económicas da Indonésia, Malásia, Filipinas e Tailândia.»

E acrescenta que

«a prostituição é considerada, por muitos países, um meio de desenvolvimento económico, o que várias organizações internacionais reforçam. Assim, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial incentivam os governos dos países capitalistas periféricos a desenvolverem a sua indústria do turismo e do entretenimento, junto dessas organizações, como importante fonte de divisas para o pagamento da dívida contraída.»

E as vítimas de tal exploração situam-se nos países da periferia. Ele observa que, «à escala mundial, os agentes de prostituição do Norte exploram mulheres e crianças do Sul e do Leste, assim como mulheres e crianças pertencentes a mi norias étnicas ou nacionais». E a entrevista descreve o atual quadro mundial de dita indústria, que alimenta o capitalismo e é por ele alimentada (2013).

 

Conclusão

A ética e a vida: dois temas centrais da existência humana. Não há verdadeira vida humana, se não se constrói a ética para a defender e cultivar. Não há ética, se a vida humana não constitui um valor fundamental. Tal relação vale desde os inícios da vida até o fim. Aí estão as questões éticas que dizem respeito à conceção e à manipulação biológica dos seres humanos já no princípio da existência humana. E não menos desafiantes se apresentam os problemas relativos à continuidade e conservação da vida, nas situações-limite da doença e da velhice.

Por detrás do pensamento de uma ética da vida está a conceção da origem da vida. Estão em jogo os dois axiomas fundamentais: no princípio está a matéria, e dela surgiu a vida humana; no princípio está o Espírito, o Absoluto que criou a vida, que foi consumada com a consciência e a liberdade humanas. As ciências fixam-se na primeira visão, enquanto a filosofia e a teologia afeiçoam-se à segunda. Daí a necessidade do diálogo de ambas. Só assim se entendem e se aprofundam os problemas levantados pelo Projeto Genoma Humano, pela normalidade ética, pelo papel da consciência ética e o seu juízo lúcido. Entrelaçam-se conhecimentos de várias fontes – filosofia, teologia, ciência, práxis, cultura – para, no final, se chegar a pensar com coerência a relação entre ética e vida.



 

Edição: SNPC
Publicado em 01.05.2017

 

Título: A ética do quotidiano
Autor: João Batista Libânio
Editora: Paulinas
Páginas: 200
Preço: 11,52 €
ISBN: 978-989-673-576-0

 

 
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