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Música: A eterna intensidade devocional das “Vésperas” de Rachmaninoff

Sua majestade, o «som»: esse sumptuoso e envolvente conjunto de vozes com as quais Sergei Rachmaninoff (1873-1943) entrelaçou a trama das “Vésperas op. 37” para coro misto “a cappella”, obra-prima sacra aberta a horizontes de profunda reflexão e intensidade devocional.

O título original da obra, executada pela primeira vez em Moscovo a 10 de março de 1915, é “Vsenocnoe bdenie”, que significa literalmente “Vigília de toda a noite”. Com efeito, nos mosteiros russos a recitação da oração litúrgica de Vésperas compreende também o ofício de Matinas e a hora “prima”.

A esta grande celebração Rachmaninoff conferiu dignidade artística absoluta, a partir do património da antiga tradição litúrgica ortodoxa, enxertando a composição com algumas soluções harmónicas que fazem parte da sua bagagem criativa de autor “moderno”.

O Coro da Rádio MDR de Leipzig, formação tecnicamente sólida e de comprovada experiência, faz-se ouvir com um som rico de nuances cromáticas que se aproximam da linguagem original, límpida e refinada da partitura. O disco foi nomeado para o Prémio Internacional de Música Clássica (ICMA) de 2018.

«O tom (ou melhor, o palco) é definido pela adição do diálogo entre diáconos e sacerdotes antes da abertura do coro “Amin”», de modo que a liturgia não sai simplesmente do nada. «A contralto Klaudia Zeiner é verdadeiramente excelente em “Blagoslovi, dus the moya”, assim como o tenor Falk Hoffmann, nomeadamente em “Nyne otpuschaeshi”, onde encontra a combinação certa de leveza e incisão. A secção de baixo também não dececiona», escreve o compositor Ivan Moody na página “Gramophone”.

O diretor artístico, Risto Joost, executa «muito bem o trabalho, entendendo que há um arco dramático que é imperativo transmitir, de modo que a obra não seja apenas uma sequência de eventos isolados, embora existam momentos individuais que se destacam, como o crescendo da secção final de “Svete tikhi” ou a secção final de “Blagosloven esi Gospodi”. Ele corre um risco com as velocidades lentas que escolhe para “Bogoroditse Devo” e “Shestopsalmie”, mas valeu a pena porque a tensão nunca se levanta, a linha nunca é perdida», assinala.

Quando a totalidade do grupo entoa o trecho de abertura, “Priidite poklonimsja” (Vinde, adoremos o rei nosso Deus), é-se imediatamente projetado para uma dimensão “outra”, impelido por uma carga de tensão que encontra um primeiro e aparente cumprimento na serena pacificação do quinto fragmento, “Nyne otpušcaeši” (Cântico de Simeão), em que a secção dos baixos da formação alemã aborda a extraordinária descida aos timbres mais escuros e cavernosos.

É um longo e articulado caminho de redenção que prossegue entre os contrastes dinâmicos de “Chvalite imja Gospodne” (Louvai o nome do Senhor) e culmina no clímax majestoso do esplêndido “Bogorodice Devo, radujsja” (Ave Maria). A vigília conclui-se com o canto “Vzbrannoj voevode” (A ti chefe invencível), página festiva que sublima em glória este esplendente mosaico musical.









 

Andrea Milanesi
In Avvenire
Trad. / edição: SNPC
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 22.02.2018

 

 

 
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