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A encíclica “Fé e razão”, 20 anos depois

Assinada a 14 de setembro de 1998 por um papa nutrido pelos seus longos anos de ensinamento filosófico na Polónia, a encíclica “Fides et ratio” deu rapidamente a volta ao mundo, suscitando um profundo entusiasmo na maior parte dos espaços académicos. Ela desencadeou uma importante reforma, a partir de então codificada, do ensinamento universitário católico, cada vez mais chamado a expor a expressão da fé às diversas racionalidades. Há três diretrizes que fazem deste texto uma referência para o futuro.

 

Sabedoria filosófica e sabedoria revelada: nem confusão nem separação

A “Fides et ratio” quis recusar a exclusividade de uma perspetiva ocidental da filosofia, privilegiando a sua vocação “sapiencial”. Que o humano nela seja declarado filósofo «por natureza» (n. 64) não lhe confere de imediato uma competência disciplinar, mas inscreve a competência filosófica na demanda nativa e universal de sabedoria.

É nesta perspetiva que é preciso ler a célebre frase que abre o texto: «A fé e a razão (“fides et ratio”) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade», escreveu João Paulo II. As palavras são medidas. Elas desenham menos a relação entre a filosofia e a teologia – cada qual feita de “crença” e de “razão” – do que a necessária interação entre os dois modos de conhecimento – fé e razão – sob os quais se exerce a investigação da verdade e da sabedoria. Uma interação onde o caminho mais curto que leva a si passa pelo outro.

Estas coisas não são de todo abstratas. Elas encontraram na história a sua concretização. Logo no início do cristianismo, o anúncio da fé comprometeu-se no trabalho da inteligência filosófica do ser humano e da história. S. Justino (século II), primeiro filósofo cristão, depois Santo Agostinho (séculos IV-V) não interrompem a procura filosófica no momento da sua conversão, antes experimentam o seu cumprimento ao assumir o melhor das suas descobertas “pagãs”.

 

Tensões positivas

A segunda linha, não menos importante: a Igreja católica não «canoniza uma das correntes filosóficas em detrimento de outras» (n. 49). No entanto, ela não cessa de se apropriar do pensamento de S. Tomás de Aquino na sua «constante novidade» (n. 43). Poder-se-ia lamentar a ausência de outros grandes nomes da filosofia medieval, como Abelardo e Boaventura, ou contemporânea, como Maurice Blondel ou Gabriel Marcel. Mas uma encíclica não é um manifesto de escola de pensamento, antes é um género literário singular onde são colocados em tensão positiva os apogeus diferenciados do pensamento, sinais que apontam para um mistério inspirador.

É por isso que João Paulo II reconhece – e aqui está uma novidade – que apesar do drama da separação «moderna» entre a fé e a razão, pode-se relevar, nas próprias contribuições daqueles que a provocaram ou prolongaram, «gérmenes preciosos de pensamento» (n. 48). Não se trata, por isso, de uma leitura catastrofista da história das ideias, mas um convite – e trata-se de uma questão mais exigente – a manifestar de maneira «crítica» a profundidade de temas que ela nos legou: sobre a perceção e a experiência, o imaginário, a personalidade e a intersubjstividade…

 

Uma filosofia “cristã”?

A encíclica não renuncia à noção de «filosofia cristã». Distinguindo-a de uma impossível «filosofia oficial da Igreja» (n. 76), ela recorda, contra as ideologias racionalistas, o facto histórico da inspiração cristã na filosofia. Também baseia o seu pleno direito. De facto, não há menos filosofia quando o filósofo é revitalizado com outras tradições de pensamento, inclusive religiosas, como Platão e Aristóteles com a teologia astral ou Ernst Bloch com a mística judaica, ou ainda Ricoeur e Breton com a Bíblia cristã. A encíclica quer também promover, em benefício da proclamação de fé, as condições de uma relação rigorosa com todas as racionalidades. Se os diversos diálogos inter-religiosos atualmente em curso se apropriassem de tal exigência, um grande passo poderia ser dado nos caminhos “críticos” do reconhecimento.


 

P. Philippe Capelle-Dumont
Professor de Filosofia da Universidade de Estrasburgo, presidente da Academia Católica de França
In La Croix
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: S. João Paulo II | D.R.
Publicado em 10.09.2018

 

 

 
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