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Leitura: "A Cruz escondida - 70 anos, 70 rostos, 70 histórias"

Rostos e testemunhos de homens e mulheres e crianças que, em múltiplos pontos do globo, representam os milhões de cristãos perseguidos por causa da sua fé, são os protagonistas do livro "A Cruz escondida - 70 anos, 70 rostos, 70 histórias".

O volume resulta da compilação de artigos que o jornalista Paulo Aido publicou nos últimos anos no semanário Voz da Verdade, do patriarcado de Lisboa, numa parceria com a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, relatando lágrimas e sofrimento, mas também alegrias e esperanças.

No prefácio, o cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, sublinha que os textos dão a conhecer «rostos concretos de pessoas, gritos de dor. Gritos tantas vezes ignorados pela sociedade».

«A recente publicação (…) redobra-nos a atenção e o cuidado que devemos manter e aumentar em relação a tais situações. Para que sejam superadas, para que sejam evitadas, para que sejam redimidas na caridade de Cristo, que converta os próprios agressores», acentua.

Paulo Aido assinala que cada um dos cristãos apresentados no livro «transporta consigo uma Cruz escondida. Todos eles foram desafiados algum dia na sua fé, foram violentados, perseguidos. Muitos foram torturados, obrigados a fugir, perdendo tudo o que tinham. São tantos os que estão raptados, os que estão sob vigilância ou desaparecidos. São tantos os que estão demão estendida para poderem sobreviver».



Estas famílias vivem lá em cima, nas montanhas, mas é como se não existissem. Por ali falta quase tudo: não há eletricidade nem água potável. Muito menos esgotos. É como se a sociedade se tivesse esquecido de que há pessoas que continuam a viver nas montanhas



Iraque, Rússia, Papua-Nova Guiné, Bolívia, Etiópia. Cazaquistão, Turquia, República Centro-Africana, Filipinas, Índia, Sudão do Sul, Paquistão, Libéria, Síria, Paquistão, Egito, Moçambique, Quénia, Coreia do Norte, Camarões, China, Ruanda, Albânia, Mianmar, Líbano, Vietname, Ilhas Salomão, Somália, Brasil e Iémen são alguns dos cenários dos protagonistas, apresentados em artigos de duas páginas com fotos a cores.

A obra vai ser lançada no próximo dia 29, às 18h30, no salão da igreja de S. Domingos de Benfica, em Lisboa. A sessão conta com a intervenção de um dos protagonistas retratados no livro, o arcebispo de Lahore, Paquistão, D. Sebastian Shaw, que nesse dia conclui a visita a Portugal iniciada no dia 27 de janeiro.

A Ajuda à Igreja que Sofre é uma fundação pontifícia que ajuda cristãos perseguidos, refugiados ou ameaçados por causa da sua fé. Com sede na Alemanha, tem secretariados em 23 países, incluindo Portugal. Recebe anualmente cerca de seis mil projetos com pedidos de ajuda de vários locais do mundo.

Por ocasião da visita que o papa Francisco vai realizar ao Peru, nos próximos dias, depois da passagem pelo Chile, transcrevemos uma das histórias que decorrem precisamente naquele país.

 

O sorriso da Irmã Umbelina – Trabalho missionário nas montanhas do Peru
Paulo Aido
In "A Cruz escondida - 70 anos, 70 rostos, 70 histórias"

Na região de Piura, no Peru, vivem pessoas praticamente isoladas do resto do mundo. As montanhas são o refúgio, o lugar onde sempre viveram. Muitas vezes, as suas casas rudimentares, construídas apenas com o que a natureza por ali oferece, confundem-se com a própria montanha, como se estivessem envergonhadas da sua pobreza. São pequenos povoados, que juntam duas, três famílias que sobrevivem da pastorícia, de uma agricultura de subsistência, de quase nada. Estas famílias vivem lá em cima, nas montanhas, mas é como se não existissem. Por ali falta quase tudo: não há eletricidade nem água potável. Muito menos esgotos. É como se a sociedade se tivesse esquecido de que há pessoas que continuam a viver nas montanhas. Também não há estradas e muitas vezes quase não há caminhos. Nada disso, porém, é um problema para as Missionárias de Jesus, Verbo e Vítima, uma congregação pontifícia fundada pelo Monsenhor Frederico Kaiser, em 1961.



As irmãs têm, junto à sua casa em Piura, uma pequena horta e alguns animais de capoeira. Se isso lhes basta para a sua alimentação de todos os dias, é sempre uma aventura conseguirem o dinheiro suficiente para os medicamentos que levam consigo até aos confins das montanhas, ou para todas as coisas básicas necessárias para quem vive tão longe de tudo



Caminhos inóspitos
Para estas irmãs, que se vestem de azul e branco, quando acabam as estradas asfaltadas é sinal de que começa o seu trabalho. Estas mulheres consagradas a Deus são tudo para populações esquecidas das montanhas. A comunidade de Piura tem quatro irmãs. Uma delas é Umbelina de Lima. Umbelina está sempre a sorrir. O seu rosto nunca revela o cansaço das suas pernas quando vai serra acima ao encontro de alguma família, de alguma pessoa. Para esta irmã, não há impossíveis. Caminhos inóspitos, às vezes calcorreados debaixo de um tempo inclemente, cruzando riachos, pedras… Nada disso parece custar perante a certeza de que, lá em cima, há alguém que precisa dela. E há sempre. Estas irmãs fazem companhia aos que vivem sozinhos nas montanhas, ensinam a ler e a escrever, fazem de médicas e de enfermeiras, celebram a Liturgia da Palavra e repartem a Comunhão.

Décadas de pobreza
A Irmã Umbelina de Lima conhece já os trilhos da serra quase de olhos fechados. As suas viagens às vezes duram dias. Há sempre muito trabalho para fazer. As irmãs são chamadas a resolver pequenas disputas, como se fossem o juiz da comarca, com a mesma facilidade com que ajudam as mulheres no momento do parto, ou ensinam as raparigas a cozinhar ou a costurar. Sempre que se fazem ao caminho, estas irmãs estão a contrariar décadas de pobreza, de analfabetismo, de isolamento. Tal como a Irmã Umbelina, há, neste momento, cerca de 400 irmãs cuja missão é ajudar os mais pobres no Peru, Argentina, Bolívia, Chile e Paraguai. Tal como as famílias que são apoiadas pela Irmã Umbelina, estas Missionárias de Jesus, Verbo e Vítima são muito pobres. Por isso, são apoiadas pela Fundação AIS, pois o seu trabalho é insubstituível.

Uma vida feliz
As irmãs têm, junto à sua casa em Piura, uma pequena horta e alguns animais de capoeira. Se isso lhes basta para a sua alimentação de todos os dias, é sempre uma aventura conseguirem o dinheiro suficiente para os medicamentos que levam consigo até aos confins das montanhas, ou para todas as coisas básicas necessárias para quem vive tão longe de tudo. Quando fundou a congregação, Monsenhor Frederico Kaiser disse uma frase que se revelou profética: «Não vos ofereço uma vida fácil nem cómoda, mas, em compensação, ofereço-vos uma vida incrivelmente feliz». Umbelina de Lima é a prova disso.


 

Edição: SNPC
Imagem: Capa | D.R.
Publicado em 16.01.2018

 

 

 
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