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A coragem de tocar o fundo da dor

Imagem Santa Teresa de Calcutá | D.R.

A coragem de tocar o fundo da dor

Narra S. Boaventura na sua “Legenda major” que Francisco de Assis, para o fim da sua vida, aclamado como santo ao passar de cidade em cidade, teria dito: «Poderei ainda ter filhos e filhas: não me louvem como se fosse já certo! Não se deve louvar ninguém quando não se sabe como irá acabar». Sim, na Igreja, desde os tempos dos apóstolos, houve sempre pessoas reconhecidas e aclamadas como santos pelos seus contemporâneos, mesmo antes da morte, pela sua vida conforme à de Jesus ou pela sua mensagem considerada inspirada por Deus. Para outros, a invocação «santo já!» ressoou já durante as exéquias.

Casos houve, ao contrário, em que se passaram séculos antes que a Igreja de Roma reconhecesse o seu testemunho como exemplar para a vida cristã e as suas palavras coerentes com a doutrina católica: isto aconteceu, sobretudo, para quantos durante a sua vida conhecerem desconfianças, ostracismos, perseguições e até condenações por parte da autoridade eclesiástica. Basta pensar naqueles que são chamados “profetas” depois de terem sido silenciados, censurados, caluniados e, por vezes, mortos por aquilo que diziam e faziam.

Madre Teresa de Calcutá obteve inúmeros reconhecimentos públicos – seja na Igreja seja na sociedade mundial – durante a sua longa vida, em particular nas últimas duas décadas, e a sua popularidade, capaz de superar fronteiras de todo o género, foi ampliada pela época histórica em que viveu: um tempo em que o impacto também emotivo de algumas figuras e das suas obras foi enfatizado pela explosão dos meios de comunicação de massa. Pense-se, emblematicamente, no acontecimento da morte de Madre Teresa, ocorrido apenas uma semana depois da trágica morte de Diana, a princesa que tinha apoiado com convicção e abundância de meios também a obra caritativa das Missionárias da Caridade, a congregação fundada pela religiosa albanesa.

Todavia, creio que nenhum dos poderosos que a encontrou, nenhum dos jornalistas curiosos de todo o mundo que a entrevistaram, nenhum dos homens de Igreja com os quais aparecia em muitas manifestações, nenhum de nós que a admirámos como uma grande figura da caridade cristã poderá dizer que a conheceu em profundidade. Quem a conheceu na sua dimensão humana e espiritual cristã mais autêntica talvez não tenham sido sequer as suas primeiras irmãs da congregação, que colheram naquela pequena mulher tenaz um eco espontâneo do Evangelho.

Creio que quem pôde vislumbrar o rosto autêntico de Madre Teresa foram os mais pobres entre os pobres, os indefesos sem dignidade, aqueles seres humanos abandonados e considerados mortos antes de exalarem o último suspiro. São eles que colheram nos seus olhos um olhar cheio de misericórdia, que perceberam nas suas mãos rudes a carícia que não curava as chagas mas sanava o coração ferido, que escutaram num sussurro de voz a palavra de vida, que não é menos importante. Porque Madre Teresa fez sempre e só isto: inclinar-se sobre quem jazia no mais esquecido canto das ruas para o tirar da solidão desesperante e para o “reerguer”, mesmo que só para aquele instante que fosse suficiente mara morrer na reencontrada dignidade de ser humano criado à imagem e semelhança de Deus.

Foram muitas as críticas dirigidas a Madre Teresa nestas últimas décadas: algumas injustas e só ofensivas, outras da parte de quem não partilhava a sua visão de dolorismo da existência, a sua resignação diante da doença e da miséria, a sua justificação da dor entendida como providencial, assim como purificadora e redentora. Nisto Madre Teresa é devedora de uma espiritualidade dominante que hoje muitos cristãos, que conhecem novas leituras antropológicas, já não conseguem partilhar. Ninguém pode, porém, negar que Madre Teresa soube ver os sofredores, aproximar-se de quem estava na miséria, abraçar quem era visto como não tendo dignidade e, por isso, descartado. Em 1980 visitei, em Calcutá, um desses “lugares” por ela preparados onde eram recolhidos os doentes e moribundos. É verdade, Madre Teresa não tinha pensado num hospital – diferentemente do padre Pio de Pietrelcina, com a sua “Casa do Sofrimento – mas como se poderia pensar noutra coisa naquela cidade inundada não de pobres mas de miseráveis desprezados?

Quem de nós tem um mínimo de empatia com o sofrimento do outro – seja ele do corpo, da mente ou do espírito – sabe que apenas pode dele compreender alguma coisa quem aceita partilhá-lo, fazê-lo próprio, “estar junto” também e sobretudo quando mais nada pode ser feito ou dito. Creio que Madre Teresa ensinou à Igreja, e ainda mais à sociedade, à nossa sociedade entontecida pelo bem-estar alcançado ou desejado, que o que conta é restituir humanidade a cada ser humano, aproximar-se concretamente e ficar junto de quem está em necessidade, recolocá-lo no lugar que lhe compete de nosso irmão ou irmã, repetir-lhe com os gestos antes ainda que com as palavras que a sua vida é preciosa para nós e que a sua morte é para nós motivo de dor, sim, mas também de lição e ensinamento, e pode tornar-se até ocasião de consolação se vivida num abraço de compaixão. Madre Teresa é um memorial, um antídoto contra a caridade cristã míope, que quer ajudar quem passa por necessidade permanecendo à distância, sem o encontrar, sem um abraço, sem a mão na mão do outro.

Sem espírito de contradição, sinto a obrigação de recordar que o que esta mulher fez na Índia, e que se tornou extraordinário ao ponto de lhe merecer as luzes da ribalta internacional, é realizado por muitas pessoas diariamente, mesmo aqui, no meio de nós, sem que nos apercebamos. Bastaria visitar uma “Casa da Divina Providência” para ver que muitas irmãs, silenciosamente, sem nenhum reconhecimento, o faziam antes de Madre Teresa e continuam a fazê-lo hoje, dobrando-se sobre corpos de homens e mulheres que, por vezes, de humano já não têm nem a forma nem a razão.

A canonização de Madre Teresa é a afirmação, por parte da Igreja católica, que a sua vida, o seu modo de dar carne ao Evangelho, é testemunha credível de Jesus, homem e Deus, que passou fazendo o bem, ao ponto de viver agora numa comunhão mais forte do que a morte. Se a existência terrena desta “pequena grande mulher” não foi mais do que uma incarnação deste amor mais forte do que o ódio que confere dignidade a cada pessoa, não se pode esquecer o que o papa Francisco afirmou: «Não há um santo que no seu passado não tenha cometido pecados e erros, e não há um pecador que no seu futuro não se possa tornar santo».

 

Enzo Bianchi
Prior do Mosteiro de Bose, Itália
In Monastero di Bose
Trad. / adapt.: Rui Jorge Martins
Publicado em 05.09.2016

 

 
Imagem Santa Teresa de Calcutá | D.R.
Madre Teresa ensinou à Igreja, e ainda mais à sociedade, à nossa sociedade entontecida pelo bem-estar alcançado ou desejado, que o que conta é restituir humanidade a cada ser humano, aproximar-se concretamente e ficar junto de quem está em necessidade, recolocá-lo no lugar que lhe compete de nosso irmão ou irmã, repetir-lhe com os gestos antes ainda que com as palavras que a sua vida é preciosa para nós
Madre Teresa é um memorial, um antídoto contra a caridade cristã míope, que quer ajudar quem passa por necessidade permanecendo à distância, sem o encontrar, sem um abraço, sem a mão na mão do outro
Se a existência terrena desta “pequena grande mulher” não foi mais do que uma incarnação deste amor mais forte do que o ódio que confere dignidade a cada pessoa, não se pode esquecer o que o papa Francisco afirmou: «Não há um santo que no seu passado não tenha cometido pecados e erros, e não há um pecador que no seu futuro não se possa tornar santo»
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