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A cátedra especial de Bento XVI, cinco anos depois

Às oito da noite (sete em Portugal continental) de 28 de fevereiro de 2013, o mundo assistia – com expetativa, com oração, com curiosidade espontânea por alguma coisa nunca vista – ao fecho do portão do palácio apostólico de Castel Gandolfo, marcando o fim do pontificado de Bento XVI. Cinco anos depois prevalece uma sensação de algum modo oposta. Não se tratou de “clausura”. A decisão inédita (na era moderna) do papa, agora emérito, abriu uma época nova na história da Igreja e, definitivamente, também no mundo contemporâneo. Entregando-nos uma herança espiritual e pastoral de valor inestimável, que continua a alimentar-se, dia após dia, do exemplo de vida e de fé do papa Ratzinger. Por isso recordar esta data não é um simples exercício de memória.

É, antes, uma imersão na leitura e na interpretação de uma página viva e extremamente fecunda do nosso tempo, procurando colher-lhe, naquilo que é possível, a urdidura e a trama no desígnio da Providência. Com efeito, se o pontificado de Bento XVI se fechou atrás daquele portão, o seu magistério não acabou, mas transformou-se. Ele subiu para outra cátedra – a da presença silenciosa e orante – que neste lustro se colocou com uma humildade servidora ao serviço da única cátedra de Pedro na qual se senta desde 13 de março de 2013 o papa Francisco. Assim como para os últimos e sofridos anos do pontificado de S. João Paulo II se falou de uma “cátedra de dor”, hoje podemos referir-nos ao período enquanto emérito do papa Ratzinger como  uma “cátedra da oração e da fé”, em continuidade com aquilo que ele ensinou como pontífice “reinante” e em relação de fraterna obediência relativamente a Francisco.

Quais são as coordenadas fundamentais deste ensinamento? Podemos dizer que ele tem antes de tudo como predisposição de fundo precisamente essa «incondicional reverência e obediência» ao sucessor, anunciada publicamente na audiência aos cardeais reunidos na Sala Clementina, a 28 de fevereiro de 2013, e sublinhada depois a Francisco em pessoa – como recordou recentemente o então secretário “in seconda” de Ratzinger, monsenhor Alfreb Xuareb, numa entrevista à página Vatican News – no primeiro telefonema entre os dois, na própria noite da eleição.



Num mundo que idolatra e, ao mesmo tempo, exorciza a morte, negando-a e ocultando-a de todas as formas, Joseph Ratzinger apresenta-a, ao contrário, como um acontecimento natural e esperado, que lhe escancarará finalmente, após um longo caminho, a porta de Casa



Bento XVI manteve em tudo essa promessa e, conhecendo-o, não era de duvidar. Preencheu-a também – e é a segunda coordenada do seu magistério como emérito – da mais preciosa modalidade de atuação – a oração em favor de toda a Igreja e em especial do vigário de Cristo – e (terceira coordenada) de um conteúdo fundamental, ou seja, a demonstração prática de como se pode viver hoje a fé, em qualquer condição e tempo da própria vida. Disto recebemos um extraordinário testemunho, não há mais de 20 dias, através de uma brevíssima carta ao jornal “Corriere della Será”. À pergunta sobre as suas condições de saúde, Bento respondeu: «No lento desvanecimento das forças físicas, interiormente estou em peregrinação para Casa».

Eis como a fé ilumina e orienta a vida do papa emérito inclusive nesta última parte da sua existência terrena. Num mundo que, por um lado, idolatra (recordemos a «cultura da morte» tantas vezes denunciada por João Paulo II) e, por outro, exorciza a morte, negando-a e ocultando-a de todas as formas, Joseph Ratzinger apresenta-a, ao contrário, como um acontecimento natural e esperado, que lhe escancarará finalmente, após um longo caminho, a porta de Casa. Há aqui uma grande serenidade pessoal que nos encoraja, bem como uma profunda consonância com o ensinamento da Igreja, que desde sempre considerou como “dies natalis” (dia natalício) dos santos o do seu “nascimento” – precisamente – para o Céu.

E há também uma profunda sintonia com o papa Francisco, que, numa audiência geral do passado mês de outubro, pediu aos fiéis para pensarem no dia da própria morte. Em conclusão, encontramos nestas palavras uma extraordinária continuidade entre o antes e o pós 28 de fevereiro. Joseph XVI foi, efetivamente, o papa da fé, isto é, do essencial. Uma questão que ele tinha indicado como crucial desde quando, jovem teólogo, teve a coragem de escrever um artigo, que lhe valeu críticas ferozes, sobre a situação declinante da fé na sua Alemanha.

Enquanto prefeito da Congregação que essa fé teve a tarefa de promover, além de defender, todos sabem o que fez. E foi essa a espinha dorsal do seu pontificado, que entregou a Francisco através dessa última encíclica, Lumen fidei (A luz da fé), levada a termo e publicada pelo seu sucessor. Nestes cinco anos, desde a sua cátedra especial, é como se entregasse novamente essa questão todos os dias também a cada um de nós.



 

Mimmo Muolo
In Avvenire
Trad.: SNPC
Imagem: Bento XVI e Francisco | D.R.
Publicado em 28.02.2018

 

 
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