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A caminho de Emaús

A caminho de Emaús

Imagem D.R.

Caminhavam atordoados pelo desânimo. Fugiam do lugar terrível no qual um grande amigo, Aquele em quem tinham colocado a esperança de liderar a revolta popular, tinha sido brutalmente crucificado, às portas da cidade santa. Nada fazia sentido. Era preciso começar de novo. Num novo lugar. Longe de tudo e de todos. Esquecer para sobreviver.

Durante essa viagem, como em quase todas as grandes viagens, alguém se aproxima. O caminho faz-se naturalmente. Faz-nos. Transforma-nos. Elucida-nos. O percurso físico é um pretexto para a revisão de um percurso existencial. A possibilidade de uma leitura diferente dos acontecimentos: «não tinha isto de acontecer?» Naturalmente, embalados pelo entusiasmo sereno do novo mestre que reinterpreta as Escrituras e também fala com autoridade. O ritmo dos passos sincronizado. O ritmo das palavras novas e cheias. Escutam a narrativa revista da história de um povo: Moisés, Elias, Jeremias… a esperança persistente de Israel. Não havia volta a dar. Tudo isto tinha de acontecer. Era mesmo assim.

O debate abranda com o entardecer. A viagem chegava ao fim. O convite surge naturalmente. Ele já não é um estranho mas um amigo: fica connosco! À mesa as palavras e os gestos repetidos são o sinal maior da vitoria sobre a morte. Ele vive. Está entre nós. Não o reconhecemos à primeira, mas ardia o nosso coração enquanto o ouvíamos.

Hoje reencontro os mesmos discípulos de Emaús nas ruas da minha cidade. Caminham cabisbaixos e desencantados. Sozinhos. Reformulam as velhas questões para as quais não encontram resposta: «Qual é o sentido?», «Porquê?», «Estarei sozinho nesta viagem?», «Para onde vou?».

O desafio de caminhar com eles é-nos feito a cada dia. Nós que sentimos o coração a arder com a Palavra do Mestre e nos alimentamos do Seu corpo somos chamados a ser companheiros de viagem destes irmãos. Ser cúmplices. Dar outro sentido para além daquele que o mundo, na sua aparente certeza, oferece. Fazer e ajudar outros a refazer o caminho como lugar e tempo de realização das mais profundas aspirações. Para que não se uma mera passagem. Um ocaso. Mas antes a experiência do encontro transformador com Aquele que caminha sempre connosco. Sempre mesmo.

Evangelho do 3.º Domingo da Páscoa: Lucas 24, 13-35



 

P. Nélio Pita, CM
Publicado em 28.04.2017

 

 
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