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«A beleza fere porque é transcendente e fugaz»: Uma conversa sobre ícones, transcendência e arte contemporânea

Imagem Peter Doig | D.R.

«A beleza fere porque é transcendente e fugaz»: Uma conversa sobre ícones, transcendência e arte contemporânea

Wendy Beckett, de 86 anos, é uma religiosa sul-africana historiadora de arte que durante vários anos passou pela experiência eremítica. Tornou-se conhecida internacionalmente depois de nos anos 90 a estação televisiva inglesa BBC lhe ter confiado a apresentação de uma série de documentários sobre história de arte. Hoje vive na comunidade monástica de Norfolk, em Inglaterra.

 

Irmã Wendy, estudou em particular o ícone e a arte medieval: em ambos os horizontes há a presença do divino e a arte é pensada, quase exclusivamente, para a liturgia e para a oração. O que é, para si, um ícone?

Cheguei tarde ao amor pelos ícones porque era difícil inseri-los dentro da história da arte. Não conseguia decidir se eram arte ou teologia. A resposta, naturalmente, é que são ambos. Enquanto nós, na Igreja ocidental, tendemos a exprimir a nossa teologia com palavras, com os livros, a Igreja oriental exprime-a frequentemente com imagens, com os ícones. Quando olhamos para um ícone entramos em comunhão com Deus. É oração. Movemo-nos, através das imagens, para o interior do mundo do Filho incarnado de Deus. Ele próprio é descrito, nas Escrituras, como um "ícone", a imagem do Pai invisível. Cada encontro com Jesus faz-nos atravessar a sua humanidade no inefável mistério do seu Pai. E algo de tão profundo ocorre quando contemplamos um ícone. Como se pode imaginar, esta é uma experiência tão envolvente que não há palavras capazes de a descrever ou, pelo menos, palavras que eu seja capaz de encontrar. Não se reza "os" ícones mas "através" deles. Tenho ícones aqui, na minha cela, e rezam comigo. Rezam todo o tempo, atraindo-me para aquele mundo ao qual pertencem.

 

Giorgio de Chirico dizia que a arte autêntica é sempre sacra. A partir da sua experiência, a arte, aquela que é verdadeira, tem sempre algo a ver com a oração?

Se a arte é genuína, então revela alguma coisa de Deus. Transcende-se a si própria. Leva-nos para um lugar a que não poderemos chegar sozinhos. Portanto, sim. Qualquer que seja o sujeito, as bailarinas de Degas ou os cavalos de Stubbs ou a maçã de Cézanne, as grandes obras de arte são iluminadas pela luz de Deus. Tomar consciência de que o poder espiritual da arte não tinha uma ligação necessária com o tema de uma certa obra de arte foi um importante passo em frente para mim. Se gostamos de uma Nossa Senhora medieval, até pintada por um artista que não seja propriamente extraordinário ou modelada por um artesão pouco hábil, é porque amamos a nossa amadíssima Virgem. É a nossa fé que ilumina a imagem. Não a imagem que ilumina a nossa fé. Pode ver-se por aqui como é diferente o mundo do ícone, onde não há nada a não ser luz e fé. Algumas vezes, misteriosamente, quase independentemente dos poderes naturais do artista.

 

Grande parte da arte contemporânea não convida à contemplação. O cardeal Gianfranco Ravasi, numa entrevista, dizia: «Um grande artista americano confidenciou-me: "Os artistas contemporâneos excluem duas coisas: a beleza e a mensagem"». O que pensa desta separação que se quer operar entre arte e contemplação. E o que pensa das artes contemporâneas?

Lutei muito com a arte contemporânea. É quase uma tentação esmagadora dizer que ela não é efetivamente arte. Mas eu resisti à tentação, recordando a mim mesma que a arte pode funcionar a níveis diversos. É como a literatura. Há grandes poemas e obras teatrais e romances, mas há também obras de entretenimento. As grandes obras acompanham-nos por toda a vida. As outras são ocasião de simples leitura e o efémero é rapidamente esquecido. De ambas, todavia, obtém-se prazer, ainda que de géneros profundamente diferentes. É também assim para a arte. Muitas obras modernas, instalações e vídeos são aquilo que chamaria arte "one look". Não suportam a contemplação mas também não pretendem fazê-lo. Há também arte capaz de suster um longo, profundo olhar, mesmo hoje. Penso em Len Tabner e Richard Cartwright, ambos grandes paisagistas. Gosto muito da obra de William Kelley, que passa metade do ano em Florença. Com toda a sinceridade o único grande nome de artista contemporâneo que me convence verdadeiramente é Peter Doig. Mas se se aguçar o olhar há ainda muito a descobrir.

 

«Platão considera o encontro com a beleza como aquela emoção saudável que faz o homem sair de si mesmo, entusiasma-o atirando-o em direção ao outro. (... )A beleza fere, mas é exatamente assim que ela chama o homem para o seu Destino último. (...) A beleza é conhecimento (...), atinge o homem com toda a grandeza da verdade», dizia em 2002 o então cardeal Ratzinger. Também na irmã a beleza provocou alguma ferida? E o que é que a fascinou mais do mundo das artes?

Foi uma verdadeira bênção, para a Igreja, ter um dos grandes teólogos internacionais como papa. A profundidade do seu pensamento transporta-nos ao próprio coração da verdade da fé. Essa sua frase sobre a beleza tem hoje uma relevância particular, quando muita arte não se preocupa, de todo, com a beleza, mas quer chocar-nos colocando em foco algum aspeto singular da existência. Todavia, como afirma o papa Bento XVI, a beleza, a verdadeira, fere-nos. Liberta-nos dos nossos preconceitos e dos nossos modos convencionais de ver as coisas. A beleza fere porque é transcendente e fugaz. Nenhuma beleza humana, por muito grande que seja, durará, e nenhuma resposta humana, por muito profunda, pode ser mantida ao infinito. A beleza é demasiado para nós. Olhamos, somos arrastados para fora de nós mesmos, voltamos a nós, respiramos profundamente, voltamos a olhar... Há quase dor na nossa inadequação. Experimento muito este sentimento quando olho Cézanne. Combateu para fixar a caducidade do mundo sobre as suas telas e, fazendo assim, para permanecer fiel à precariedade e à estabilidade. É um esforço moral enorme. Penetrá-lo é, ao mesmo tempo, doloroso e indizivelmente maravilhoso e ninguém pode fazê-lo por muito tempo.

 

ImagemIr. Wendy Beckett | D.R.

 

In "Avvenire"
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 02.03.2016

 

 
Imagem Peter Doig | D.R.
Lutei muito com a arte contemporânea. É quase uma tentação esmagadora dizer que ela não é efetivamente arte. Mas eu resisti à tentação, recordando a mim mesma que a arte pode funcionar a níveis diversos
Muita arte não se preocupa, de todo, com a beleza, mas quer chocar-nos colocando em foco algum aspeto singular da existência. Todavia, como afirma o papa Bento XVI, a beleza, a verdadeira, fere-nos. Liberta-nos dos nossos preconceitos e dos nossos modos convencionais de ver as coisas
Nenhuma beleza humana, por muito grande que seja, durará, e nenhuma resposta humana, por muito profunda, pode ser mantida ao infinito. A beleza é demasiado para nós. Olhamos, somos arrastados para fora de nós mesmos, voltamos a nós, respiramos profundamente, voltamos a olhar... Há quase dor na nossa inadequação
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