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Cinema: “A balada de Adam Henry”

Cada país tem as suas leis no que diz respeito à proteção de menores. Através da história de uma juíza confrontada com uma recusa de cuidados de saúde devido a motivos religiosos, o realizador questiona com inteligência o papel universal da justiça.

O título em inglês, “The children act”, faz referência à lei britânica de 1989 segundo a qual o interesse da criança prevalece sobre qualquer situação ou conflito familiar.

Fiona Maye é juíza de diferendos familiares e especialista em questões médicas. As situações que gere diariamente são extremamente delicadas e intensas em dramas e tragédias, como no caso dos gémeos siameses que não são viáveis em conjunto. Apaixonada pelo seu trabalho, exigente e meticulosa, Fiona deixou para trás a sua vida pessoal e sentimental.

A solenidade e o decoro da justiça no Reino Unido são, em si, toda uma encenação, que o realizador utiliza finamente para estabelecer a personalidade da personagem principal. Em locais repletos de história e grandeza, os magistrados não andam constantemente de peruca e de vestes negras e vermelhas, mas assumem um formalismo que mantém à distância as partes implicadas, bem como os simples curiosos.

Sempre impecável na sua aparência exterior, Fiona parece gerir a vida tal como administra as causas que lhe são confiadas. O seu papel é de aplicar a lei, e ela aprendeu a não se deixar abalar pelas acusações das famílias que se sentem lesadas pelos seus julgamentos, e da imprensa que os transmite.



Sem manipular o espetador para impor uma tese, sem designar culpados nem querer emocioná-lo a todo o custo, o cineasta oferece-nos um filme cativante e inteligente, e com a ajuda de uma soberba atriz, conduz-nos à nossa responsabilidade de cidadãos



Até ao dia em que dois acontecimentos estremecem as suas certezas. Jack, o seu marido, gostaria de vez em quando reencontrar a esposa, e não a juíza, sempre monopolizada pelos seus dossiês. E uma nova disputa, implicando um menor, testemunha de Jeová, que recusa a transfusão sanguínea que o poderia salvar.

Longe de ser um filme que ataca uma crença religiosa ou a história de uma conversão, “A balada de Adam Henry” é antes de tudo o retrato de uma mulher que se identificou de tal modo com a sua vida profissional e as leis da sociedade que está encarregada de aplicar, que deixou de existir enquanto mulher ou ser humano. Ela é juíza em todos os seus atos, até que os acontecimentos, e sobretudo a tenacidade de dois homens, a fazem vacilar e regressar a uma humanidade mais complexa e mais serena.

Emma Thompson incarna com graça e rigor esta dama de ferro, imperial e magnífica na sua vida profissional, abalada nos momentos em que vacila ou exprime, por fim, sentimentos, em vez de pronunciar um julgamento. Momentos que o realizador filma próximo do rosto e das expressões corporais, onde os diálogos são inúteis, tendo em conta a grande atriz que é a protagonista.

Ao evitar sobrecarregar o filme com demasiada carga emocional, Richard Eyre coloca em plano secundário muitas questões pertinentes. A moral e a justiça nem sempre são compatíveis, a liberdade individual, a dignidade de cada pessoa e o papel atribuído pelo Estado ainda menos são. Sem manipular o espetador para impor uma tese, sem designar culpados nem querer emocioná-lo a todo o custo, o cineasta oferece-nos um filme cativante e inteligente, e com a ajuda de uma soberba atriz conduz-nos à nossa responsabilidade de cidadãos.








 

Magali Van Reeth
In Signis
Trad.: Rui Jorge Martins
Imagem: "A balada de Adam Henry" | D.R.
Publicado em 21.09.2018

 

Título: A balada de Adam Henry
Realização: Richard Eyre
Interpretação: Emma Thompson, Fionn Whitehead, Stanley Tucci
Género: Drama
Ano: 2018
Duração: 105 min.
Classificação etária: M/12
Estreia em Portugal: 20.9.2018

 

 
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