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A alegria e a salvação da criação

Imagem When The Universe Has A Bigger Plan For Your Life | © Marjorie Salvaterra | D.R.

A alegria e a salvação da criação

Diz Sua Santidade o Papa Francisco, na sua primeira Exortação Apostólica, Evangelii Gaudim, no n.º 23: «A alegria do Evangelho é para todo o povo, não se pode excluir ninguém; assim foi anunciada pelo anjo aos pastores de Belém: “Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo (Lc 2, 10)"». Acrescenta imediatamente Sua Santidade que «o Apocalipse fala de «uma Boa-Nova de valor eterno para anunciar aos habitantes da terra: a todas as nações, tribos, línguas e povos» (Ap 16, 6). No n.º 33 da mesma Exortação, cita São Tomás de Aquino: «O elemento principal da Nova Lei é a graça do Espírito Santo, que se manifesta através da fé que opera pelo amor», pela caridade. Na sequência da sua reflexão, o Santo chega à conclusão fundamental de que a lei do Evangelho é uma lei de liberdade, sob a orientação da graça.

Que alegria é esta? É o ato de absoluta conformidade do nosso ser com a graça de Deus, assim plenamente presente em nós. O sentimento que acompanha este ato e que faz com que a alegria seja vivida como «minha» e me outorgue o incomparável dom de um prazer espiritual sem medida e sem comparação é o mais puro de todos e também o mais pessoal de todos. Mas esta pessoalidade não significa um isolamento psicológico de tipo narcisista, é, antes, o coroamento do ato da pessoa como relação. Neste sentido, o modelo da alegria é a própria pericorese trinitária, de que se pode dizer que é alegria eterna.

Mas só é alegria eterna porque é eterno dom pessoal, eterna relação de amor.

Ora, este é o modelo político de relação segundo o amor: o «povo» de que nos fala Sua Santidade – e que não pode deixar de ser, em sua extrema possibilidade, todas as pessoas – é convidado à perene partilha gratuita da refeição do amor, numa benevolência ativa que a todos promova no sentido do melhor bem possível, definição da própria Cidade de Deus, lugar da eterna alegria.

A vontade salvífica de Deus, fonte primeira de todo o dom criatural, é o lugar transcendental da possibilidade do amor universal: é porque Deus fez o ser para que este se cumpra no melhor de si próprio, que é a comunhão com Deus, que é possível amar. É o fim de possibilidade de salvação universal que permite que sequer se possa amar, querer o bem, querer universalmente o bem de tudo e agir nesse sentido. As formas de possível ação são infinitas. O exercício desta ação, pelo absoluto do bem que introduz na criação, bem que é análogo ao bem do Criador, imediatamente coincide com a alegria e esta revela-se como o absoluto do bem vivido e sentido como tal: emula a alegria-padrão de Deus quando proclama o bem criado, logo após a sua criação. A alegria é, então, o ato de amor que a si próprio se saboreia na pessoa de quem ama: é o mais próximo da glória eterna que se pode experimentar no mundo da imanência, tocando já a transcendência, antegostando já Deus.

A alegria é, assim, o toque da misericórdia infinita de Deus. Na alegria, a pessoa sabe provisoriamente, segundo o tempo e o movimento, o que é a graça eterna da salvação: daí a sua força avassaladora, que não permite que a ela oponhamos quando nos visita, isto é, quando coincidimos plenamente com o bem que fazemos, Deus em nós. A alegria como antegosto da salvação só nos liga verdadeiramente à eternidade no tempo, marcando-nos deste modo indelevelmente, se aceitarmos que isso que agora me visita possa ser dado a toda a criação, num ato de bem-querer que redime todo o mal e que depende de mim: se eu não quiser que a graça de Deus possa salvar tudo, imponho uma barreira à divina misericórdia e impeço a salvação universal. Esta é a figura do mal e do próprio inferno como absoluto da distância da criatura à misericórdia de Deus, tão infinita quanto o próprio, porque com Ele coincide.

Nunca haverá plena alegria enquanto houver uma qualquer ovelha que esteja perdida, uma só que seja. A possibilidade de bem, posta por Deus aquando da criação, só se cumpre quanto todas, mas mesmo todas as ovelhas estiverem no redil do amor criador de Deus, indistinguível do seu amor redentor. Enquanto a vontade de salvação universal não se realizar não haverá humana alegria eterna: ou nos salvamos todos ou ninguém se salva verdadeiramente. E Deus nunca usa de violência, prerrogativa exclusivamente criatural e coisa de criatura apenas parcialmente inteligente.

Onde estás, homem, no caminho da salvação de todos? Nada de mais blasfemo antropologicamente do que a busca da salvação individual. A salvação pessoal nunca acontecerá em regime de exclusividade individual: o mero desejo já é atentado contra o projeto de Deus. O primeiro no céu é aquele que desejar com todo o seu ser que seja ele o último a ser salvo, depois de todos os outros: dele, poderá Deus dizer «olha o meu servo Último, vê como é bom. É o primeiro a gozar da plenitude da alegria da Trindade».

Sem amor pleno pela criação e pelo plano de Deus, não há alegria. Sem a tua salvação, eu nunca receberei a graça do dom da alegria plena.

 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa
Publicado em 08.10.2014

 

 

 
Imagem When The Universe Has A Bigger Plan For Your Life | © Marjorie Salvaterra | D.R.
Na alegria, a pessoa sabe provisoriamente, segundo o tempo e o movimento, o que é a graça eterna da salvação: daí a sua força avassaladora, que não permite que a ela oponhamos quando nos visita, isto é, quando coincidimos plenamente com o bem que fazemos, Deus em nós
Onde estás, homem, no caminho da salvação de todos? Nada de mais blasfemo antropologicamente do que a busca da salvação individual. A salvação pessoal nunca acontecerá em regime de exclusividade individual: o mero desejo já é atentado contra o projeto de Deus
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