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"A adoração dos pastores": A última obra-prima de El Greco

"A adoração dos pastores": A última obra-prima de El Greco

Imagem A adoração dos pastores (det.) | El Greco | 1512-1614 | Museu do Prado, Madrid, Espanha | D.R.

"A adoração dos pastores", pintado entre 1612 e 1614 por El Greco, é uma cena noturna que se desenvolve num espaço estreito e irregular, uma espécie de gruta que ao fundo tem um vão afunilado formado por dois arcos.

Em torno de Jesus recém-nascido, despido sobre o regaço de Maria, S. José e três pastores mostram uma fervorosa devoção diante da criança. No chão, de joelhos, um pastor contempla o Menino.

Muito próximo do grupo, sobrevoando a cena, ao mesmo tempo que fecha a elipse que a compõe, um grupo de anjos revela a complacência celestial ante o nascimento do Redentor, ao mesmo tempo que segura uma faixa em que se lê: "Gloria in excel[sis Deo e]t in terra pax [hominibus]".

Pode considerar-se esta Natividade como a última obra-prima saída da mão de El Greco, que morreu há 400 anos, em 1614.

A tela de 319 x 180 cm foi pensada para o local de enterro da família Theotokopoulos no convento de S. Domingos "O Antigo", em Toledo, onde o pintor recebeu a sua primeira encomenda em Espanha, no ano de 1557. 



Imagem A adoração dos pastores (det.) | El Greco | 1512-1614 | Museu do Prado, Madrid, Espanha | D.R.

Em agosto de 1612 estabeleceu-se o acordo da comunidade religiosa com Jorge Manuel, filho do pintor, definindo-se a cessão de um altar que está na igreja do convento, fronteiro à porta principal.

O espaço serviria para o enterro dos Theotokopoulos, que se comprometiam a pagar os custos do acondicionamento e ornamentação do sepulcro familiar. Além de El Greco, ali foi sepultada Alfonsa de Morales, primeira mulher de Jorge Manuel.

Todavia, um desacordo entre as partes faria com que o compromisso se extinguisse em 1618, quatro anos após a morte do pintor. As monjas cistercieneses exigiram a Jorge Manuel a exumação dos restos mortais do pintor, ainda que a grande tela realizada por El Greco viesse a permanecer na igreja até 1954, ano em que foi vendida ao Estado espanhol.

Na pintura, o Menino Jesus aparece como o emissor de uma intensa luz que banha o reduzido grupo que o contempla.

O profundo sentimento religioso de El Greco manifesta-se na expressão de assombro e recolhimento dos pastores ao contemplar a imagem luminosa do recém-nascido, que a Virgem desvela cuidadosamente com as suas mãos.

A imagem do pastor ajoelhado, provável auto-retrato, que une as mãos em atitude de recolhimento e oração, parece refletir o fervor do pintor, que com os olhos à altura de Jesus parece querer estabelecer com Ele um intenso diálogo visual.



Imagem A adoração dos pastores (det.) | El Greco | 1512-1614 | Museu do Prado, Madrid, Espanha | D.R.

Domenikos Theotokopoulos nasceu no ano de 1541 em Creta, que pertencia então à República de Veneza. Até 1567 trabalhou na ilha como pintor de ícones, tendo partido a capital da "Sereníssima" depois de alcançar o título de mestre em pintura.

Em Veneza, onde residiu três anos, El Greco foi discípulo de Ticiano. Durante a estadia aprendeu a dominar a arte ocidental do Renascimento, em particular no uso da cor, da perspetiva e da anatomia, bem como a técnica do óleo.

Após uma viagem de estudo por Itália (Pádua, Vicenza, Verona, Parma e Florença), instalou-se em Roma em 1570, onde permaneceu até 1576-77, em contacto com o círculo intelectual do cardeal Alessandro Farnese, possivelmente o mais rico e influente patrono das artes da cidade.

Em 1572 foi afastado da proximidade com o prelado, tendo entrado na associação Accademia di San Luca, onde trabalhou sobretudo como retratista e em pequenas obras devocionais.

As críticas que El Greco dirigiu às capacidades de Miguel Ângelo não ajudaram a firmar a sua reputação e terão contribuído para o afastar do núcleo das artes de Roma.



Imagem A adoração dos pastores (det.) | El Greco | 1512-1614 | Museu do Prado, Madrid, Espanha | D.R.

El Greco transfere-se para Madrid em 1576, sob o regime de Filipe II (Filipe I de Portugal), então envolvido na grande construção do "El Escorial". No ano seguinte estabelece-se em Toledo, cidade que fará sua e em que viverá os seus melhores anos como artista.

Na origem da mudança estaria o carácter cosmopolita da cidade, a existência de uma poderosa sociedade civil e uma rica vida cultural, a par da vocação internacional das classes dirigentes e do início de grandes programas de construção destinados a modernizar Toledo.

Anos depois, a saída definitiva da corte da cidade marca o começo da sua estagnação e posterior decadência. Os governantes de Toledo procuraram reagir, promovendo o orgulho dos seus habitantes, movimento em que El Greco participou ativamente.

Da simbologia dos ícones bizantinos para a visão humanista da Renascença, e daqui para uma arte predominantemente concetual: os mundos que El Greco habitou tinham em comum tinham a convicção de que a arte eleva o espírito.



Imagem A adoração dos pastores | El Greco | 1512-1614 | Museu do Prado, Madrid, Espanha | D.R.



 



Edição: Rui Jorge Martins
Fontes: Museu do Prado, Madrid, Espanha; El Greco 2014; The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque, EUA
Publicado em 22.12.2014

 

 
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