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Quaresma e música: Senhor, abre os meus lábios

Costumamos associar, algo apressadamente, o Salmo 51 (50) a uma atitude de lamentação, que chega mesmo a ser tingida de uma cor de tal maneira escura que sugere uma situação miserável. O título do poema, “Miserere”, não deve ocultar a sua verdadeira natureza de louvor e esperança.

A Liturgia das Horas abre cada dia com um versículo do referido salmo: «Abri, Senhor, os meus lábios e a minha boca anunciará o teu louvor». Eis-nos assim convidados a situar-nos com exatidão no caminho da Quaresma. É da natureza de um texto poético fazer-nos percorrer um caminho interior; como é que isso acontece com este salmo?

Ele abre-se nos seus primeiros versículos a um pedido insistente de perdão – «apaga», «lava-me», «purifica-me» – da parte de quem se reconhece pecador, de quem se confia à misericórdia divina, de quem canta a sua alegria de ser salvo. Estamos no coração do autêntico júbilo do cristão: a confiança lúcida que conhece a sua fraqueza e depõe a sua força em Deus.

É exatamente o que canta Marc-Antoine Charpentier (1644-1704) neste “Miserere”, dito dos Jesuítas, que data dos anos 1683/85. Escutaremos a primeira parte, a mais interessante.

Após uma breve abertura instrumental, criadora de uma atmosfera dolorosa, os dois primeiros versículos retomam o estilo convencional da lamentação: atrasos e apojaturas que concebem dolorosas dissonâncias, uma curva musical descendente cantada pela voz do baixo e depois retomada pelo coro.

A música continua numa sucessão de diálogos entre baixos e sopranos, numa progressão subtil para um ritmo cada vez mais enérgico, quase ao ponto de sugerir uma dança sagrada. O compositor leu bem o Salmo 50, dele revelando o movimento interior.

«Miserere mei, Deus, secundum magnam misericordiam tuam.
Et secundum multitudinem miserationum tuarum, dele iniquitatem meam.»
(Tende piedade de mim, Deus, segundo a tua grande misericórdia.
Segundo a tua grande misericórdia, apaga o meu pecado.)

«Amplius lava me ab iniquitate mea : et a peccato meo munda me.
Quoniam iniquitatem meam ego cognosco : et peccatum meum contra me est semper.»
(Lava-me de toda a minha iniquidade; e purifica-me do meu pecado.
Sim, eu conheço a minha iniquidade; o meu pecado está sempre diante de mim.)

«Tibi soli peccavi, et malum coram te feci : ut justificeris in sermonibus tuis, et vincas cum judicaris.
Ecce enim veritatem dilexisti : incerta et occulta sapientiae tuae manifestastis mihi.»
(Contra ti e só contra si pequei; fiz o mal diante dos teus olhos.
Tu aprecias a verdade no íntimo do ser; em segredo ensinas-me a sabedoria.)

«Asperges me hyssopo et mundabor : lavabis me et super nivem dealbabor.
Auditui meo dabis gaudium et laetitiam : et exsultabunt ossa humiliata.»
(Purifica-me com o hissope e ficarei puro; lava-me e ficarei mais branco que a neve.
Faz-me ouvir palavras de gozo e alegria; e exultem os ossos que trituraste.)









 

Emmanuel Bellanger
In Narthex
Trad.: SNPC
Imagem: Everst/Bigstock.com
Publicado em 06.03.2018

 

 
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