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Jesus refugiado nos refugiados destes tempos

Jesus refugiado nos refugiados destes tempos

Imagem "Fuga para o Egito" | Vittore Carpaccio | C. 1500

«Travestidos de pastores/ ou escolta voluntária dos reis Magos/ vamos a Belém falando de amor e de paz,/ mas ainda assim escondendo/ sob a capa de qualquer eventualidade/ uma kalashnikov bem oleada». São versos muito fortes estes de um poeta recôndito e agora esquecido, Giovanni Angelo Abbo, falecido em 1994. É curioso que a poesia intitula-se “Natal 1987”: na realidade, ela é ainda mais atual hoje, quando se fala de paz, e todavia o mercado do armamento e as potências políticas continuam a introduzir os seus produtos de guerra e de morte nos vários países.

Entretanto o Natal tradicional continua as suas coreografias publicitárias, os seus aparatos de luzes e de presentes, os seus rituais comerciais. Entendamo-nos: também este aspeto exterior, num tempo em que se tende a eliminar todo o símbolo ou memória religiosa, tem um significado. Contudo, com os fluxos ininterruptos e muitas vezes trágicos dos refugiados, com as bombas de Alepo e as tendas das vítimas dos terramotos não podemos, como cristãos, abandonar-nos impunemente aos “gadgets” e aos bolos-reis, às iluminações e às filhoses.

É por isso que pensámos propor uma cena natalícia evangélica conhecida mas habitualmente marginalizada, a de Cristo refugiado no Egito com os seus pais. Há alguns anos, o pintor Renato Guttuso, numa das capelas do Monte Santo de Varese, quis representar Maria, José e o pequeno Jesus precisamente como uma família de refugiados no Próximo Oriente, amedrontados, obrigados a abandonar a sua casa errando no deserto.



Macróbio, historiador romano do século V, atribuirá ao imperador Augusto uma frase respeitante a Herodes: junto dele tinham mais sorte os porcos (não comestíveis pelos judeus) do que os filhos



Contrariamente à jubilosa retórica natalícia, a narrativa evangélica do nascimento e infância de Cristo nos 48 versículos dos dois primeiros capítulos do Evangelho de Mateis é, com efeito, raiado de sofrimento: nasce numa gruta-estábulo, é deposto não num berço mas numa manjedoura, expõe-se desde logo ao espetro e Herodes, é transferido para uma terra estrangeira para não acabar trespassado pela espada que elimina os recém-nascidos de Belém, naquele que será conhecido como “o massacre dos inocentes”.

A sombra da cruz projeta-se, portanto, desde os primeiros dias da sua vida e é significativo que a escola artística russa de Novgorod, no ícone da Natividade de Cristo, a partir do século XV, tenha representado o Menino envolvido em faixas funerárias e deposto num berço em forma de sepulcro.

Detenhamo-nos agora no acontecimento da fuga para o Egito, que é assim narrado por Mateus: «O anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: “Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egipto e fica lá até que eu te avise, pois Herodes procurará o menino para o matar”. E ele levantou-se de noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egito, permanecendo ali até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciou pelo profeta: Do Egito chamei o meu filho» (2, 13-15).

Estas escassas palavras evangélicas estão mais preocupadas em oferecer uma interpretação teológica daquela fuga do que documentar os seus componentes históricos (esta é uma característica geral dos Evangelhos, e em particular dos chamados “Evangelhos da infância de Jesus” presentes nos capítulos 1-2 de Mateus e de Lucas.



É a mesma vicissitude dos refugiados que chegam ao litoral europeu: não deixarão rasto na história e os seus nomes, as suas expetativas, os seus medos dissolver-se-ão no silêncio ou, pior, naquele túmulo de água que é o Mediterrâneo



Efetivamente, com a citação final extraída do profeta Oseias (11,1) - «do Egito chamei o meu filho» - quer-se aludir àquele acontecimento capital da história do Israel bíblico que foi o êxodo da opressão faraónica: Cristo percorre emblematicamente essas etapas, incarnando sofrimento e salvação, opressão e libertação. E no fim ressoará no Egito o apelo dirigido a José, o pai legal de Jesus, para o regresso à Terra Santa: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino» (2,20).

No contexto histórico está a figura do famoso rei Herodes, cuja biografia pode ser reconstruída com o historiador judaico Flávio Josefo: ela foi marcada por grandes sucessos políticos, mas também por um implacável punho de ferro na supressão de todo o mínimo aceno de oposição. Macróbio, historiador romano do século V, atribuirá ao imperador Augusto uma frase respeitante a Herodes: junto dele tinham mais sorte os porcos (não comestíveis pelos judeus) do que os filhos (em grego as duas palavras têm um som semelhante), porque Herodes tinha também liquidado filhos, mulheres e parentes, suspeitos de conluios nas suas costas. O Egito, confinante com a Palestina, constituía, portanto, uma terra ideal de exílio para os perseguidos.

Mateus, com a sobriedade própria dos Evangelhos canónicos, não acrescenta nada àquele retrato essencial de uma familiazinha que avança para o desconhecido: toda a narrativa acima citada, no original grego, é composta apenas por sete dezenas de palavras. É a mesma vicissitude dos refugiados que chegam ao litoral europeu: não deixarão rasto na história e os seus nomes, as suas expetativas, os seus medos dissolver-se-ão no silêncio ou, pior, naquele túmulo de água que é o Mediterrâneo. Como é sabido, são os evangelhos apócrifos, com as suas reconstruções fantasiosas, a imaginar uma viagem triunfal de Jesus, Maria e José para aquela terra estrangeira.



A liturgia deste Natal, com a voz incansável do papa Francisco, transforma-se num apelo a reencontrar entre os rostos assustados dos refugiados que vemos fluir nos ecrãs das televisões também aquele do pequeno Jesus e aqueles angustiados de Maria e José



Palmeiras que se dobram para oferecer tâmaras, feras que se escondem, fontes de água que brotam das areias do deserto, ídolos dos templos egípcios que caem por terra à passagem de Jesus, bandidos que se convertem: este é o cenário mítico que, por páginas e páginas, desvela maravilhas nesses escritos apócrifos. Eles terão o mérito de alimentar a arte ao longo dos séculos e dar origem à comunidade cristã do Egito, que ainda hoje está presente de modo significativo no país. Trata-se dos coptas, termo que é a deformação do grego “aiguptos”, “Egito”, porque eram indígenas desse território antes da chegada, no século VII, dos árabes muçulmanos.

Quem visitou mais demoradamente o Egito sabe que o coração antigo da cidade do Cairo está povoado de igrejas coptas (Santa Bárbara, S. Sérgio, S. Jorge, Maria Virgem, a igreja “suspensa”), muitas vezes ligadas simbolicamente à passagem da Sagrada Família. Na cripta da igreja dedicada aos soldados mártires Sérgio e Daco, a tradição popular reclama que Jesus, Maria e José passaram um inverno, abandonando-a de julho a setembro, quando o Nilo alagava essa gruta no tempo das cheias.

Memórias, em todo o caso, bem longínquas daquelas poucas palavras do evangelista Mateus, que apresenta os inícios da vida terrena do Senhor num espírito de pobreza, fuga, sofrimento. A liturgia deste Natal, com a voz incansável do papa Francisco, transforma-se num apelo a reencontrar entre os rostos assustados dos refugiados que vemos fluir nos ecrãs das televisões também aquele do pequeno Jesus e aqueles angustiados de Maria e José, e a estender as nossas mãos para as cruzar com as deles.



 

Card. Gianfranco Ravasi
Presidente do Conselho Pontifício da Cultura
In "Famiglia Cristiana"
Trad. / adapt.: Rui Jorge Martins
Publicado em 04.01.2017

 

 
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