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Jesus, o pastor santo, belo e bom

Nos trechos evangélicos que a Igreja (depois daqueles referentes às manifestações do Ressuscitado) nos propõe para o Tempo Pascal, sempre extraídos do quarto Evangelho, é Jesus Cristo ressuscitado que fala à sua comunidade, revelando a sua identidade mais profunda, identidade que vem de Deus seu Pai. O Senhor que vive para sempre é mais que nunca autorizado a apresentar-se como o próprio Nome de Deus: «Eu sou». Quando Moisés pediu a Deus que lhe falava da sarça ardente para lhe revelar o seu Nome, Deus respondeu: «Eu sou», Nome inefável, Nome indizível inscrito no tetragrama JHWH.

O Cristo vivo revela-se portanto como «Eu sou», e especifica: «Eu sou o pão da vida» (João 6, 35); «Eu sou a luz do mundo (João 8, 12); «Eu sou a porta das ovelhas» (João 10, 7); «Eu sou a ressurreição e a vida» (João 11, 25); «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (João 14, 6); «Eu sou a vida» (João 15, 5). No trecho do Evangelho proclamado nas missas do quarto domingo da Páscoa (João 10, 11-18), depois de se apresentar como a porta do redil, Jesus declara duas vezes: «Eu sou o pastor bom e belo», reassumindo em si as imagens de todos os pastores dados por Deus ao seu povo (Moisés, David, os profetas), mas também a imagem do próprio Deus, invocado e louvado como "Pastor de Israel" (Salmo 80, 2) por quem acredita nele.

Jesus tinha evocado várias vezes a imagem do pastor e do rebanho por ele apascentado (cf. Mateus 9, 36; 10,6; 15, 24, etc.), mas agora, com esta revelação, fala de si mesmo, proclama-se Messias e Enviado por Deus para conduzir a humanidade à vida plena, vindo para que «todos tenham a vida e a tenham em abundância» (João 10, 10). O bom pastor é o oposto do pastor assalariado, que desempenha esse mester apenas porque é pago, que olha para a recompensa pelo trabalho, mas que na verdade não ama as ovelhas: estas não lhe pertencem, não são destinatárias do seu amor e não contam nada para ele. Demonstra-o o facto de que, quando chega o lobo, ele abandona as ovelhas e foge: quer salvar-se a si próprio, não as ovelhas a ele confiadas. Quem é o pastor mercenário ou assalariado? É um funcionário, é aquele que desempenha a função por causa do salário que recebe ou simplesmente porque o ser pastor é considerado uma honra que lhe causa reconhecimento e também lhe dá glória. Mas deve dizer-se: o pastor assalariado é facilmente reconhecível no dia a dia, porque está longe das ovelhas e não as ama. A ele basta governá-las.



O oferecer a vida da parte de Jesus situa-se no espaço da fé, não da garantia antecipada. O mandamento do Pai é que Ele gaste, ofereça a vida; e a promessa do Pai é que assim poderá recebê-la, porque «quem perde a sua vida reencontrá-la-á, mas quem quer salvá-la, perdê-la-á»



Ao contrário, o amor do bom pastor pelas suas ovelhas causa sobretudo a sua exposição, o seu dar a vida pela sua salvação. Não só ele gasta a vida estando no meio das ovelhas, guiando o rebanho, conduzindo-o para pastos onde lhe é possível saciar-se; mas pode também acontecer que a ameaça à vida do rebanho se torne ameaça à própria vida do pastor. É este o momento em que o bom pastor se revela. Esta solidariedade, este amor só são no entanto possíveis se o pastor não só não é um assalariado, mas se conhece as suas ovelhas com um conhecimento particular que o leva a discernir e a reconhecer a identidade de cada uma: um conhecimento penetrante que é gerado pela proximidade, pela assídua proteção do rebanho.

Sim, a primeira qualidade do pastor autêntico é a proximidade às ovelhas: está com elas noite e dia, nos desertos e nos prados, debaixo do sol e debaixo da chuva. O papa Francisco falou de «proximidade da cozinha», isto é, do estar onde «se cozinham» as coisas decisivas, aquelas que contam para cada ovelha, para cada rebanho; falou do pastor que deve estar revestido do «odor das ovelhas». Imagens fortes, que indicam a urgência de os pastores não estarem nem sobre nem nas margens, mas «no meio», em plena solidariedade com as ovelhas.

Jesus procura explicar esta comunhão recíproca, evocando o conhecimento entre si e o Pai, que o enviou e do qual procura realizar, dia após dia, a vontade: «Eu conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-me, assim como o Pai me conhece e Eu conheço o Pai». Nestas palavras de Jesus está a essência do cuidado pastoral: um conhecimento recíproco penetrativo entre pastor e ovelhas. Não só o pastor conhece as ovelhas uma por uma, numa relação pessoal e num vínculo de amor, mas também as ovelhas conhecem o pastor, a sua vida, o seu comportamento, os seus sentimentos, as suas ânsias e as suas alegrias, porque o pastor é-lhes próximo. As ovelhas não conhecem só a voz do pastor que escutam quando as chama, mas conhecem também a sua presença, por vezes silenciosa, mas que lhes dá sempre segurança e paz.



Ninguém prende a vida a Jesus, ninguém a rouba, e a sua morte não é um destino (uma necessidade) nem um caso (as coisas correram-lhe mal...): não, o seu é um dom feito na liberdade e por amor, um dom de que Ele foi consciente ao longo de toda a sua vida, dizendo a cada dia o seu "sim" ao amor



Tal conhecimento-comunhão é certamente aquele vivido por Jesus nos seus dias terrenos, no interior da sua comunidade, com os seus discípulos e as suas discípulas; mas é também uma comunhão que transcende os tempos, enquanto for vivida na historia entre o Ressuscitado e quantos Ele atrair a si, chamando-lhes de outros redis. Vindo para todos, não só para Israel, e querendo levar todos à plenitude da vida, Jesus é consumido pelo desejo de que haja um só rebanho sob um só pastor e que todos os filhos de Deus dispersos sejam reunidos. Precisamente no acontecimento da cruz manifestar-se-á a glória de Jesus como glória de quem amou até à morte, e então, erguido da terra, atrairá todos a si e dará início à reunião das gentes em seu torno, até ao cumprimento do final dos tempos, quando «o Cordeiro for o seu pastor» (Apocalipse 7, 17). Jesus não é um pastor como os pastores de Israel, mas precisamente porque é «a luz do mundo? e «o Salvador do mundo» - tendo Deus amado o mundo -, Ele é também o pastor de toda a humanidade, como Deus foi confessado e testemunhado.

Após esta auto-revelação, eis outras palavras com que Jesus exprime a sua intimidade, a sua comunhão com Deus: «Por isso o Pai me ama: porque Eu deponho a minha vida, para a receber de novo». Porque é que o Pai ama Jesus? Porque Jesus realiza a sua vontade, essa vontade que é amor até ao dom da vida. Em Jesus há este amor «até ao extremo», até ao dom da vida, e há a fé de a poder receber de novo do Pai. Tome-se aqui atenção à tradução, que pode comprometer o sentido das palavras de Jesus. Jesus não diz: «O Pai ama-me porque ofereço a minha vida para a retomar de novo», mas «para a receber de novo» (o verbo "lambáno" no quarto Evangelho significa sempre «receber», não «retomar»).

O oferecer a vida da parte de Jesus situa-se no espaço da fé, não da garantia antecipada. O mandamento do Pai é que Ele gaste, ofereça a vida; e a promessa do Pai é que assim poderá recebê-la, porque «quem perde a sua vida reencontrá-la-á, mas quem quer salvá-la, perdê-la-á» (cf. Marcos 8, 35 e paralelos; João 12, 25). Ninguém prende a vida a Jesus, ninguém a rouba, e a sua morte não é um destino (uma necessidade) nem um caso (as coisas correram-lhe mal...): não, o seu é um dom feito na liberdade e por amor, um dom de que Ele foi consciente ao longo de toda a sua vida, dizendo a cada dia o seu "sim" ao amor.

Nas palavras de Jesus, o Pai surge como a origem e o fim de toda a sua atividade: dele vem o mandamento, que não é outro senão o mandamento de amar, vivido por Jesus na sua descida enquanto Palavra feita carne e na sua vida humana no mundo. E a morte de Jesus não é só o termo do êxodo deste mundo, mas é um ato consumado («Está consumado!»: João 19, 30), o termo último do seu viver o amor até ao extremo. Jesus dá a sua vida até morrer, mas não com o desejo de recuperar a vida como prémio, de a retomar como um tesouro que lhe cabe ou como um mérito pela oferta de si, mas na consciência de que o Pai lha dá e que Ele o acolherá porque «o amor basta ao amor» (Bernardo de Clairvaux). Jesus não deu a sua vida por razões religiosas, sagradas, mistéricas, mas porque quando se ama é-se capaz de dar tudo de si pelos amados, tudo o que se é.

No túmulo de um cristão do fim do século II, um certo Abercio, lê-se esta inscrição: «Sou o discípulo de um pastor santo que tem olhos grandes; o seu olhar alcança todos». Sim, Jesus é o pastor santo, bom e belo, com olhos grandes, que alcança todos, inclusive nós, hoje. E por estes olhos nós sentimo-nos protegidos e guiados.


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: SNPC
Imagem: "O Bom Pastor" | C. 390 | Ásia Menor | Cleveland Museum of Art, EUA
Publicado em 18.04.2018

 

 
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