Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura
Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura - Logótipo
secretariado nacional da
pastoral da cultura

Amor, suplício, glória, incredulidade: Jesus, a cruz e Nicodemos

No passado domingo escutámos no quarto Evangelho o anúncio de que Jesus passa a ser o templo de Deus, isto é, o lugar da comunhão com Deus. E uma vez mais demo-nos conta de como a leitura do quarto Evangelho exige um esforço maior para a compreensão do Evangelho, da boa notícia nele contida. Neste quarto domingo da Quaresma (João 3, 14-21), eis-nos novamente diante de outro trecho do Evangelho joanino, um texto difícil em vários aspetos: com efeito, João tem uma visão que deve ser colhida para além daquilo que escreve, uma visão profunda, que não é – podemos dizer – a nossa visão humana, mas pertence só a quem tem a fé em Jesus, portanto uma visão inspirada pelo olhar de Deus sobre o que Jesus viveu.

João foi testemunha da paixão e morte de Jesus no Gólgota, naquela sexta-feira, vigília da Páscoa, 7 de abril do ano 30 da nossa era. Viu o sofrimento de Jesus, o desprezo que padeceu por parte dos carniceiros e, sobretudo, esse suplício vergonhoso e terrível – “crudelissimum taeterrimumque supplicium”, como o define Cícero – que era a cruz. Viu esta cena com os seus olhos mas, após a ressurreição de Jesus, na fé plena, na contemplação e meditação deste acontecimento, vai lê-lo de maneira diferente dos Evangelhos sinóticos. Nesses Evangelhos, Jesus tinha anunciado três vezes a “necessidade” da sua paixão, morte e ressurreição, e por três vezes esse anúncio tinha aterrorizado os discípulos. O quarto Evangelho também atesta que por três vezes Jesus falou dessa “necessitas”, mas fá-lo com uma linguagem outra: o que nos sinóticos é infâmia, tortura, suplício na cruz, para João torna-se uma “elevação”, ou seja, uma glória.

No nosso trecho ressoa o primeiro dos três anúncios feitos por Jesus: «É preciso que o Filho do homem seja elevado». Efetivamente, Jesus, pendurado no madeiro, foi elevado da terra, para João esta elevação não é redutível à elevação física do seu corpo sobre a cruz, mas é um ser elevado gloriosamente e colocado ao alto por Deus, um ser glorificado, isto é, revelado na sua glória. Para João, “ser elevado” é também “ser glorificado”, estar na cruz é estar à direita do Pai. Por isso Jesus diz: «Quando elevardes o Filho do homem”, ou seja, quando o tiverdes materialmente posto na cruz, «então sabereis que Eu sou, que Eu sou como Deus». E ainda: «Eu, quando for elevado da terra, atrairei todos a mim». Esta hora da elevação é por conseguinte a hora da glorificação, a hora na qual Jesus atrai a si toda a humanidade, a hora da paixão e da cruz. No quarto Evangelho paixão e Páscoa são o mesmo mistério, único e incindível, e a hora da paixão é a hora da epifania [manifestação] do amor.



Este é o Evangelho que Jesus revela a Nicodemos, um especialista das Escrituras que no entanto Jesus define como «ignorante»



Sim, devemos confessar que este olhar joanino sobre a cruz não é facilmente aceitável por nós, humanos, e no entanto esta é a verdadeira e profunda compreensão da cruz de Jesus: a cruz foi materialmente um suplício, mas foi também um levantar do véu sobre como Jesus «amou os seus até ao extremo»; foi uma morte como maldito por Deus e pelos homens, crucificado a meio do ar porque Jesus não era digno nem do Céu nem da Terra; e todavia, é precisamente na cruz que Ele reconcilia Céu e Terra, fazendo cair toda a barreira, e abre o Reino à humanidade, levando a humanidade para Deus. Na cruz morre um homem só e abandonado, mas este homem dizia que o «amor maior é dar a vida pelos amigos».

Esta é a leitura paradoxal da cruz feita por João. Este é o Evangelho que Jesus revela a Nicodemos, um especialista das Escrituras que no entanto Jesus define como «ignorante»: um «mestre em Israel» que não conhece a ação de Deus na sua verdade profunda. Para procurar explicar-lhe esta “necessidade” da paixão e morte do Messias, Filho do homem, Jesus tenta uma comparação com um acontecimento ocorrido a Israel no deserto, depois da saída do Egito. Segundo o livro dos Números, os judeus foram atacados por serpentes mortíferas, e então Moisés ergueu numa haste uma serpente de bronze; quem a olhava, ainda que mordido pelas serpentes, continuava a viver, era salvo. Esta antiga narrativa é reinterpretada pelo livro da Sabedoria, que faz outra leitura do acontecimento, vendo na serpente «um sinal de salvação»: «Quem se voltava para a ver era salvo não por meio do objeto que via, mas por ti, Salvador de todos».



Devemos estar muito atentos e vigilantes na escuta: as palavras de Jesus a Nicodemos não indicam a cruz como abandono do Filho à morte por parte do Pai, mas revelam-nos um amor único do Pai e do Filho por toda a humanidade



Jesus revela, assim, «as coisas do Céu» que tinha falado a Nicodemos, exprimindo a necessidade da elevação do Filho do homem, «para que todo aquele que crê nele não pereça, mas tenha a vida para sempre»: elevação do Filho único de Deus, dado por Deus ao mundo precisamente por causa do seu amor pelo mundo, ou seja, por toda a humanidade. Nestas ações de Deus é narrado o seu amor: por isso a descida do Céu, a incarnação numa vida humana, a paixão que culmina na elevação sobre a cruz são a manifestação do amor de Deus pela humanidade.

Devemos estar muito atentos e vigilantes na escuta: as palavras de Jesus a Nicodemos não indicam a cruz como abandono do Filho à morte por parte do Pai, mas revelam-nos um amor único do Pai e do Filho por toda a humanidade. O Filho Jesus Cristo, precisamente esse dom para a humanidade, viveu a sua existência dando a vida, suscitando a vida, transmitindo a vida. O Pai, por seu lado, não quis a descida do Filho e a sua incarnação para julgar o mundo, mas para o salvar através da adesão e a resposta ao amor. A presença de Jesus exige que cada pessoa faça agora a sua escolha, porque agora ocorre o juízo, porque agora diante de Jesus é possível escolher a treva ou a luz, que não são um destino mas dependem de cada um de nós diante do amor revelado.

Está aqui entrevisto o ministério da incredulidade, que não é recusa de uma doutrina, de uma ideia ou de uma moral, mas é algo muito mais radical: é recusa da confiança, recusa da esperança, recusa do amor. Sim, de um lado há o amor incondicional de Deus, oferecido a todos os seres humanos e mostrado no dom do Filho único feito homem para ser um de nós e viver entre nós e connosco; do outro há da nossa parte a possibilidade de responder ao amor com o amor ou, ao contrário, de recusar o amor, de não acreditar no amor e assim ficarmos excluídos, colocando-nos na treva do ódio e da morte. No quarto Evangelho a fé e o crer são sempre um operar no amor, como Jesus dirá: «Esta é a obra, a ação exigida por Deus; crer naquele que Ele enviou».

Eis, portanto, o caminho traçado diante de nós: quem é da verdade, isto é, sabe responder ao amor com ações, manifesta que estas ações são realizadas nele pelo próprio Deus. Desta maneira o crente vive já a «vida eterna». «Deus quer que todos os homens sejam salvos», proclama o apóstolo Paulo; quer que todos «tenhamos a vida e a tenhamos em abundância». Por isso Deus dá-se a si mesmo, o próprio Filho único e amado, ao mundo que anseia pela salvação.


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: SNPC
Imagem: "Cristo na cruz" (det.) | Joachim Beuckelaer | 1567 | Museu do Louvre, Paris, França
Publicado em 09.03.2018

 

 
Relacionados
Destaque
Pastoral da Cultura
Vemos, ouvimos e lemos
Perspetivas
Papa Francisco
Teologia e beleza
Impressão digital
Pedras angulares
Paisagens
Umbrais
Mais Cultura
Vídeos