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«Deus não é um problema, é um mistério» e cristianismo é «projeto inacabado», afirma Tomáš Halík

Imagem Tomáš Halík | D.R.

«Deus não é um problema, é um mistério» e cristianismo é «projeto inacabado», afirma Tomáš Halík

O padre checo Tomáš Halík considera que «a fé e a dúvida são irmãs», defende que «as certezas absolutas são um risco» e sublinha que «Deus não é um problema, é um mistério».

«Um mistério não tem fundo, obriga-nos a refletir sempre mais profundamente. Não há um ponto final, parágrafo. Deus é um mistério tão profundo que nunca o conseguiremos tornar nossa propriedade», afirma o sacerdote em entrevista publicada na edição desta segunda-feira do "Diário de Notícias".

O ensaísta que está em Portugal desde quinta-feira e que hoje às 18h30, em Lisboa, na Culturgest, termina a visita a Portugal que o levou a Fátima, Porto, Braga e Coimbra, acentua também que «o cristianismo é um projeto inacabado e a Igreja está a caminho».

Para Halík, cujas obras e palestras têm como uma das linhas mais vincadas o diálogo inter-religioso e entre crentes e não-crentes, é necessário aceitar o «mundo pluralístico e multicultural» da atualidade, o que não significa que, em termos religiosos, todas as crenças se unam numa só.

«Não concebo uma espécie de esperanto religioso, uma religião universal, única e boa para todos. Isso não é possível. Só a tolerância também não basta. É preciso respeitar o carácter único e específico do outro», referiu.

A conferência desta tarde, que será acompanhada pelo lançamento do novo livro do sacerdote, "Quero que tu sejas - Podemos acreditar no Deus do amor?", da Paulinas Editora, é intitulada "O regresso de Deus".

Muitas pessoas dizem «que não são meros materialistas, que sabem que existe alguma coisa acima de nós. Este “algoísmo” é, no meu entender, a religião mais popular do nosso tempo», assinala em entrevista publicada hoje na Renascença.

«As pessoas não estão preparadas para acreditar num conceito particular de Deus e é este conceito que está em crise. É um desafio e uma oportunidade, para refletir mais a fundo sobre o conceito de Deus», acrescenta.

No interior da Igreja católica também se verificam alterações na biografia crente, permeada por influências afastadas do cristianismo.

«Ao longo dos últimos 25 anos, desde a queda do comunismo, baptizei mais de mil jovens adultos, na maioria universitários. Falei com todos eles e os seus caminhos até ao cristianismo foram frequentemente muito complexos e às vezes começaram por passar pelo budismo, o hinduísmo, o ioga», explicou.

No entender de Tomáš Halík, esta trajetória pode beneficiar a espiritualidade: «Muitos deles [jovens batizados adultos] estão mais bem preparados para a vida espiritual. Têm uma certa disciplina de meditação, sabem que a vida espiritual exige ascetismo e que isto também os pode preparar para a vida espiritual cristã».

«Penso que estamos confrontados com um Deus que se esconde, e a nossa fé, esperança e amor são três artes, três formas de viver com este silêncio de Deus», salienta.

Halík está convicto de que «os sinais dos tempos são também a linguagem de Deus», mas o seu discernimento exige «silêncio interior, uma fé esclarecida e capacidade de interpretação» dos acontecimentos «à luz de Deus, à luz da fé, porque as respostas não estão à superfície, estão mais fundo».

«A minha Teologia é (...) a tentativa de comunicar com as pessoas que não estão completamente identificadas com o ensinamento da Igreja, com a instituição Igreja», disse o teólogo checo em entrevista à Agência Ecclesia.

 

Rui Jorge Martins
Publicado em 03.05.2016

 

 

 
Imagem Tomáš Halík | D.R.
Muitas pessoas dizem «que não são meros materialistas, que sabem que existe alguma coisa acima de nós. Este “algoísmo” é, no meu entender, a religião mais popular do nosso tempo»
Halík está convicto de que «os sinais dos tempos são também a linguagem de Deus», mas o seu discernimento exige «silêncio interior, uma fé esclarecida e capacidade de interpretação» dos acontecimentos «à luz de Deus, à luz da fé, porque as respostas não estão à superfície, estão mais fundo»
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