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Deus não dá ninguém por perdido: Bispos devem ter estas palavras no coração, diz papa

O papa recebeu hoje os bispos recentemente nomeados que frequentaram um curso realizado no Vaticano pela Congregação para os Bispos, tendo acentuado que Deus «não dá nada nem ninguém por perdido».

«É esta a mensagem que os fiéis têm o direito de encontrar nos vossos lábios, nos vossos corações e na vossa vida», frisou Francisco, que pediu aos prelados para não gastarem energias a «contabilizar falhanços e recordar amarguras».

«Encontrando-vos, que cada pessoa possa pelo menos tocar a beleza de Deus, a segurança da sua companhia e a plenitude da sua proximidade. É uma santidade que cresce enquanto se descobre que Deus não é domesticável, não precisa de cercas para defender a sua liberdade, e não se contamina quando se aproxima, antes santifica aquilo que toca», assinalou.

A intervenção lembrou os muitos «consagrados e ministros de Deus [que], na silenciosa dedicação de si, perseveram, não se importando com o facto de que o bem muitas vezes não faz alarido, não é tema nos blogues nem chega às primeiras páginas».

«Recomendo-vos uma atenção particular ao clero e aos seminários. Não podemos responder aos desafios que temos em relação a eles sem atualizar os nossos processos de seleção, acompanhamento, avaliação», apontou.

As respostas da Igreja «serão privadas de futuro se não chegaram ao abismo espiritual que, em não poucos casos, permitiu escandalosas debilidades, se não colocarem a nu o vazio existencial que alimentaram, se não revelarem porque é que Deus foi tornado mudo, tão posto calado, tão afastado de um certo modo de viver, como se não existisse».

 

Papa Francisco
13.9.2018

Com alegria vos acolhi hoje, na conclusão da vossa peregrinação de novos bispos às fontes espirituais desta antiga e sempre nova Roma de Pedro e de Paulo. Ao abraçar-vos como novos pastores da Igreja, talvez ainda atravessados pela estupefação de terdes sido chamados a esta missão nunca proporcional e conforme às nossas forças, queria como que tomar-vos à parte, a vós e a cada uma das vossas Igrejas; queria aproximar-me de vós com o toque de Cristo, Evangelho de Deus que aquece o coração, reabre os ouvidos e desata a língua à alegria que não se gasta e não se desvanece, porque nunca é comprada nem merecida, antes é pura graça. (…)

Encontrámos, quase “por acaso”, o tesouro da nossa vida, e por isso somos chamados a vender tudo para guardar o campo no qual se esconde esta mina inesgotável. É necessário diariamente tomar nas mãos esse precioso dom, na sua luz procurar a luz, e pelo seu rosto deixar-se transfigurar.



Permanecei em vigília mesmo quando desaparece a luz, ou quando o próprio Deus se oculta na treva, quando a tentação de retirar-se se insinua e o maligno, que está sempre à espreita, sugere subtilmente que a aurora nunca mais virá. Precisamente nesse momento prostrai-vos de novo com o rosto por terra



Falo-vos aqui da mais urgente das vossas tarefas de pastores: a da santidade. Como se exprimiu a oração da Igreja sobre vós, fostes eleitos pelo Pai, que conhece os segredos dos corações, para o servir noite e dia, de modo a torná-lo propício ao vosso povo.

Não sois fruto de um escrutínio meramente humano, mas de uma escolha do Alto. Por isso de vós requer-se não uma dedicação intermitente, uma fidelidade de fases alternadas, uma obediência seletiva, não, mas sois chamados a consumar-vos noite e dia.

Permanecei em vigília mesmo quando desaparece a luz, ou quando o próprio Deus se oculta na treva, quando a tentação de retirar-se se insinua e o maligno, que está sempre à espreita, sugere subtilmente que a aurora nunca mais virá. Precisamente nesse momento prostrai-vos de novo com o rosto por terra, para escutar Deus que fala e renova a sua promessa nunca renegada. E depois permanecei fiéis mesmo quando, no calor do dia, enfraquecem as forças da perseverança e o resultado do cansaço já não depende dos recursos que temos.



Não gasteis as vossas melhores energias para contabilizar falhanços e recordar amarguras, deixando-vos apequenar o coração e encolher os horizontes. Seja Cristo a vossa alegria, o Evangelho o vosso alimento



E tudo isto não para alimentar a narcisista pretensão de serdes essenciais, mas para tornar o Pai propício ao vosso povo. Deus já é a favor do ser humano. O seu divino ser, que podia existir sem nós, revela-se por nós no seu Filho Jesus. Nele oferece-se a paternidade de Deus que nunca se resigna; nele conhecemos o coração divino que não dá nada nem ninguém por perdido. É esta a mensagem que os fiéis têm o direito de encontrar nos vossos lábios, nos vossos corações e na vossa vida.

No início do vosso ministério, peço-vos que coloqueis Deus no centro: Ele é aquele que pede tudo, mas em troca oferece a vida em plenitude. Não aquela vida diluída e medíocre, vazia de sentido porque repleta de solidão e de soberba, mas a vida que brota da sua companhia que nunca desaparece, da força humilde da cruz do seu Filho, da segurança serena do amor vitorioso que nos habita.

Não vos deixeis tentar por narrativas de catástrofes ou profecias de tragédias, porque aquilo que verdadeiramente conta é perseverar, impedindo que o amor arrefeça, e ter alta e erguida a cabeça para o Senhor, porque a Igreja não é nossa, é de Deus. Ele que era antes de nós e será depois de nós. O destino da Igreja, do pequeno rebanho, está vitoriosamente oculto na cruz do Filho de Deus. Os nossos nomes estão esculpidos no seu coração – esculpidos no seu coração!; a nossa sorte está nas suas mãos. Por isso, não gasteis as vossas melhores energias para contabilizar falhanços e recordar amarguras, deixando-vos apequenar o coração e encolher os horizontes. Seja Cristo a vossa alegria, o Evangelho o vosso alimento. Tende fixado o vosso olhar só no Senhor Jesus e, habituando-vos à sua luz, sabei procurá-la incessantemente mesmo onde ela se torna rarefeita, seja também através de humildes clarões.



Milhões de homens e mulheres, crianças, jovens perdem-se numa realidade que obscureceu os pontos de referência, são desestabilizados pela angústia de pertencerem a nada. A sua sorte não interpela a consciência de todos e muitas vezes, infelizmente, aqueles que teriam as maiores responsabilidades, esquivam-se culpadamente. Mas a nós não é consentido ignorar a carne de Cristo



Lá, nas famílias das vossas comunidades, onde, na paciência tenaz e na generosidade anónima, o dom da vida é embalado e nutrido.

Lá, onde subsiste nos corações a frágil mas indestrutível certeza de que a verdade prevalece, que amar não é vão, que o perdão tem o poder de mudar e de reconciliar, que a unidade vence sempre a divisão, que a coragem de se esquecer de si próprio pelo bem do outro é mais gratificante do que o primado intangível do eu.

Lá, onde tantos consagrados e ministros de Deus, na silenciosa dedicação de si, perseveram, não se importando com o facto de que o bem muitas vezes não faz alarido, não é tema nos blogues nem chega às primeiras páginas. Eles continuam a acreditar e a pregar com coragem o Evangelho da graça e da misericórdia a homens sequiosos de razões para viver, para esperar e para amar. Não se assustam perante as feridas da carne de Cristo, sempre infligida pelo pecado e não raras vezes pelos filhos da Igreja.

Sei bem o quanto no nosso tempo alastram a solidão e o abandono, propaga o individualismo e cresce a indiferença ao destino dos outros. Milhões de homens e mulheres, crianças, jovens perdem-se numa realidade que obscureceu os pontos de referência, são desestabilizados pela angústia de pertencerem a nada. A sua sorte não interpela a consciência de todos e muitas vezes, infelizmente, aqueles que teriam as maiores responsabilidades, culpadamente esquivam-se. Mas a nós não é consentido ignorar a carne de Cristo, que nos foi confiada não apenas no sacramento que partimos, mas também no povo que herdámos.



É preciso que os recipientes saibam que sem o vinho novo seriam jarros de pedra fria, capazes de recordar a ausência mas não de dar a plenitude. Por favor, nada vos afaste desta meta: dar a plenitude



Também as suas feridas nos pertencem. É imperativo tocá-las, não para as tornar manifestos programáticos de compreensível raiva, mas lugares em que a Esposa de Cristo aprende até que ponto pode desfigurar-se quando se desvanecem no seu rosto os traços do Esposo. Mas aprende também de onde voltar a partir, em humilde e escrupulosa fidelidade à voz do seu Senhor. Só Ele pode garantir que, nos ramos da sua vinha, os homens não encontrem apenas agraços, mas o vinho bom, o vinho da verdadeira vide, sem a qual nada podemos fazer.

Este é o objetivo da Igreja: distribuir no mundo este vinho novo que é Cristo. Nada nos pode distrair desta missão. Precisamos continuamente de odres novos, e tudo o que fazemos nunca é suficiente para os tornar dignos do vinho novo que somos chamados a guardar e a derramar. Mas, precisamente por isto, é preciso que os recipientes saibam que sem o vinho novo seriam jarros de pedra fria, capazes de recordar a ausência mas não de dar a plenitude. Por favor, nada vos afaste desta meta: dar a plenitude!



Não serve a contabilidade das nossas virtudes, nem um programa de ascese, uma palestra de esforços pessoais ou uma dieta que se renova semanalmente, como se a santidade fosse fruto apenas da nossa vontade



A vossa santidade não seja fruto do isolamento, mas floresça e frutifique no corpo vivo da Igreja a vós confiada pelo Senhor, assim como aos pés da cruz entregou a sua Mãe ao discípulo amado. Acolhei-a como esposa a amar, virgem a proteger, mãe a tornar fecunda. O vosso coração não se apaixone por outros amores; vigiai para que o terreno das vossas Igrejas seja fértil para a semente do Verbo e nunca esmagado pelos javalis.

Como podereis fazê-lo? Recordando-vos que não somos nós que estamos na origem da nossa “porção de santidade”, mas é sempre Deus. É uma santidade pequenina, que se alimenta do abandono nas suas mãos como uma criança de leite que não precisa de pedir a demonstração da proximidade materna. É uma santidade consciente de que nada de mais eficaz, de maior, mais precioso, mais necessário podeis oferecer ao mundo da paternidade que está em vós. Encontrando-vos, cada pessoa possa pelo menos tocar a beleza de Deus, a segurança da sua companhia e a plenitude da sua proximidade. É uma santidade que cresce enquanto se descobre que Deus não é domesticável, não precisa de cercas para defender a sua liberdade, e não se contamina quando se aproxima, antes santifica aquilo que toca.

Não serve a contabilidade das nossas virtudes, nem um programa de ascese, uma palestra de esforços pessoais ou uma dieta que se renova semanalmente, como se a santidade fosse fruto apenas da nossa vontade. A fonte da santidade é a graça de vos aproximardes da alegria do Evangelho e deixar que seja ela a invadir a nossa vida, de tal maneira que já não se poderá viver diferentemente. Antes ainda que nós existíssemos, Deus existia e amava-nos. A santidade é tocar esta carne de Deus que nos precede. É entrar em contacto com a sua bondade. Olhai os pastores chamados na noite de Belém: encontraram naquele Menino a bondade de Deus. É uma alegria que ninguém poderá roubar-lhes. Olhai as pessoas que de longe observavam o Calvário: voltaram a casa batendo-se no peito porque tinham visto o corpo ensanguentado do Verbo de Deus. A visão da carne de Deus escava no coração e prepara o lugar onde pouco a pouco toma morada a divina plenitude.



Convido-vos a ir por diante alegres e não amargurados, serenos e não angustiados, consolados e não desolados – procurai a consolação do Senhor -, conservando o coração de cordeiros que, ainda que rodeados de lobos, sabem que vencerão porque contam com a ajuda do pastor



Por isso recomendo-vos que não vos envergonheis da carne das vossas Igrejas. Entrai em diálogo com as suas perguntas. Recomendo-vos uma atenção particular ao clero e aos seminários. Não podemos responder aos desafios que temos em relação a eles sem atualizar os nossos processos de seleção, acompanhamento, avaliação. Mas as nossas respostas serão privadas de futuro se não chegaram ao abismo espiritual que, em não poucos casos, permitiu escandalosas debilidades, se não colocarem a nu o vazio existencial que alimentaram, se não revelarem porque é que Deus foi tornado mudo, tão posto calado, tão afastado de um certo modo de viver, como se não existisse.

E aqui, cada um de nós deve humildemente entrar no profundo de si e perguntar-se que coisa pode fazer para tornar mais santo o rosto da Igreja que governamos em nome do Supremo Pastor. Não serve apontar só o dedo aos outros, fabricar bodes expiatórios, rasgar as vestes, escavar na fraqueza dos outros como gostam de fazer os filhos que viveram em casa como se fossem servos. Aqui é necessário trabalhar juntos e em comunhão, certos, no entanto, que a autêntica santidade é aquela que Deus cumpre em nós, quando dóceis ao seu Espírito regressamos à alegria simples do Evangelho, de modo que a sua bem-aventurança se torne carne para os outros nas nossas opções e nas nossas vidas.

Convido-vos, portanto, a ir por diante alegres e não amargurados, serenos e não angustiados, consolados e não desolados – procurai a consolação do Senhor -, conservando o coração de cordeiros que, ainda que rodeados de lobos, sabem que vencerão porque contam com a ajuda do pastor.

Maria, aquela que nos conduz ao colo sem nos julgar, seja a estrela luminosa que guia o vosso caminho.

Ao agradecer ao cardeal Marc Ouellet e ao cardeal Leonardo Sandri e às suas respetivas congregações pelo generoso trabalho realizado, concedo a bênção apostólica sobre cada um de vós e sobre as Igrejas que sois chamados a servir.»


 

Trad. / edição: Rui Jorge Martins
Fonte: Sala de Imprensa da Santa Sé
Imagem: rrvachov/Bigstock.com
Publicado em 13.09.2018

 

 
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