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Deus, Job e a misericórdia

Imagem Job em oração (det.) | Marc Chagall | 1960 | Museu Nacional da Mensagem Bíblica Marc Chagall, Nice, França | D.R.

Deus, Job e a misericórdia

No primeiro parágrafo da sua Bula sobre a Misericórdia, diz liminarmente o Papa Francisco: «Jesus Cristo é o rosto da misericórdia do Pai». Para o crente, desde que a misericórdia do pai ganhou rosto na e com a incarnação de Cristo, existe um interlocutor cujo rosto pode ser posto diante do seu e, olhos nos olhos, interrogado acerca precisamente da relação de Deus com o ser humano do ponto de vista da misericórdia. Pode a pessoa sofredora olhar o rosto do Cristo sofredor e com ele dialogar acerca da experiência do sofrimento, pois ambos os rostos são rostos de seres que sofrem e que, através do diálogo dos rostos, podem, no rosto do outro, mas a partir da sua experiência de sofrimento, procurar entender o que seja o sofrimento de esse cujo rosto está perante o seu rosto.

Pode definir-se a incarnação como o ato de Deus se transformar em rosto: Deus num rosto. Não Deus com rosto, mas Deus como rosto. A própria cena do sudário da face de Cristo a caminho do Gólgota ganha uma diferente grandeza como paradigma, pois, na forma marcada na materialidade especular do pano está fixado o rosto humano em sua dimensão sofredora. Na tradição, não temos um retrato assim físico especular do Jesus alegre. A alegria é puramente espiritual, o sofrimento não consegue eliminar o peso mundano de que é símbolo e também marca, por vezes indelével.

No tempo narrativo, simbólico e paradigmático de Job, não há possível presença do rosto de Cristo. Ao rosto sofredor de Job não pode apresentar-se o rosto de Cristo, sofredor ou não; aliás, do rosto de que Job necessitava não era de um rosto de sofrimento, mas de alegria. No fim da tribulação, tê-lo-á, não o do Filho, mas, ato absolutamente inusitado, o do próprio Pai, o Deus que vem ao mundo de rosto destapado perante o rosto do fiel amante. Por alguma razão muito importante esta cena de Job literalmente rebenta com todos os padrões de sacralidade universalmente usados para marcar a distância ontológica entre o Deus e os seus subordinados.

Na ausência total de um rosto divino durante toda a sua extrema provação, a Job restavam os rostos dos seres humanos seus próximos: a mulher, os falsos amigos. Como no demais da narrativa, também esta situação é paradigmática da condição da humanidade: no comum da humana existência, são apenas os rostos das demais pessoas esses que podem presentificar-se perante o nosso rosto, no caso, rosto sofredor.

É pelo rosto e pelo que ele, de modos vários, diz que eu sei se estou humanamente acompanhado ou não; se há amor em ato para comigo ou não; ou, invertendo as funções, se acompanho mesmo o outro ou não, esse que sofre, se o amo ou não.

Como sabemos, os rostos humanos que se presentificaram perante Job foram todos expressões diabólicas de incompreensão, de judicação preconceituosa, de humanamente blasfema falta de amor (também divinamente blasfema, pois o próprio Deus assim a considera – naturalmente, dado que toda a falta de amor é blasfema perante o Deus que criou para que se possa amar e manda amar).

Mais grave e, por tal, muito mais profundamente significativo, é o rosto com que Deus primeiro se presentifica perante Job, respondendo à invocação deste – espantosa ironia do ato em que o convocado à fidelidade extrema por Deus convoca este a manifestar também a sua fidelidade, que terá de ser absoluta ou não é propriamente Deus.

O primeiro rosto manifesto de Deus não é um rosto de misericórdia, é um rosto agressivo, prepotente, que agride Job, que o humilha, que o procura levar à beira do desespero, algo que nunca acontece porque o rosto de Job mais não faz do que manifestar o que Job é, numa fase em que se pode dizer que, de Job, já nada mais resta do que o próprio rosto.

Mas o mesmo se pode dizer de Deus neste momento abissal: já nada mais resta do que o seu rosto. Entre o rosto puro de Job e o rosto do puro Deus, ainda que de expressão dura, há um abismo. Neste abismo joga-se todo o destino e sentido do ser, não apenas do ser humano, mas do ser universal. Se algum dos dois desviar o olhar, tudo se perde, pois tal desvio corresponderá à confissão de que não se reconhece no rosto do outro esse outro que é a razão do enfrentamento. Reconhece Deus a Job e reconhece Job a Deus?

Mesmo perante a dureza do rosto de Deus, Job não desvia o olhar, não deixa de reconhecer no duro rosto de Deus o rosto do Deus a quem ama, que pensa que o ama e a quem é fiel como fidelidade a tal amor.

O olhar de Deus, tendo recebido de Job a constância do seu olhar; o rosto de Deus, tendo recebido do rosto de Job a serena manifestação da constância na fidelidade, transforma-se no rosto da alegria de quem sabe que o seu amado servo é também o seu amante servo, agora seu amigo.

Transforma-se no rosto de um Deus misericordioso. O Deus que reconhece a fidelidade da criatura, que para ela olha com uma ternura infinita. Pela primeira vez, desde a criação, Deus pode contemplar uma criatura perfeita, não já e apenas como pura obra sua, num ato sem movimento e sem tempo. Em movimento e tempo, submetida à possível degradação total, acometida por todas as formas de degradação, menos pela ética, que é o refúgio ontológico em que Deus nunca permite que se toque, a criatura permanece tão pura como quando criada por Deus.

Radical bondade esta que permite que Deus desça ao nível do que criou para com o seu ápice diretamente falar. Algo de absolutamente inusitado. Sem disfarce, sem mediação. Tal é o mérito da criatura perfeita na fidelidade a Deus.

Job é uma construção teórica. No entanto, fica o repto: e se houvesse alguém perfeito como Job? Que faria Deus? Mostraria diretamente o seu rosto?

Esta inusitada relação de Deus e de Job, olhos nos olhos, em que Deus acaba enternecidamente por expressar o seu amor pela especial criatura cumulando-a simbolicamente de bens, permite-nos perceber o sentido do rosto de misericórdia de Deus em Cristo não como um movimento reativo de um Deus apenas curador de enfermos, mas como um movimento de um Deus curador pleno de uma humanidade e de uma criação não porque estes sejam maus, mas porque, maus ou bons, o amor de Deus tudo transcende e a vontade de Deus é sempre salvífica, apenas porque Deus sabe sempre que apenas o melhor é digno de si e Deus não pode realizar senão o melhor.

A misericórdia de Deus de nada depende senão do amor de Deus e o seu Rosto de misericórdia olha para onde quer, como o seu Espírito sopra onde quer. Esta misericórdia, este olhar de bondade infinita, esta inspiração e expiração absolutamente livre chama-se Santíssima Trindade, eterna contemplação do rosto da caridade que é Deus como amor. Quem isto não perceber, nunca deixou de olhar para o espelho. Está ainda perfeitamente a tempo de mudar o foco do olhar.

 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Publicado em 17.05.2016

 

 
Imagem Job em oração | Marc Chagall | 1960 | Museu Nacional da Mensagem Bíblica Marc Chagall, Nice, França | D.R.
Muito mais profundamente significativo, é o rosto com que Deus primeiro se presentifica perante Job, respondendo à invocação deste – espantosa ironia do ato em que o convocado à fidelidade extrema por Deus convoca este a manifestar também a sua fidelidade, que terá de ser absoluta ou não é propriamente Deus
Esta inusitada relação de Deus e de Job, olhos nos olhos, em que Deus acaba enternecidamente por expressar o seu amor pela especial criatura cumulando-a simbolicamente de bens, permite-nos perceber o sentido do rosto de misericórdia de Deus
Esta misericórdia, este olhar de bondade infinita, esta inspiração e expiração absolutamente livre chama-se Santíssima Trindade, eterna contemplação do rosto da caridade que é Deus como amor
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