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Deus conta contigo por aquilo que és, não pelo que tens ou pelo teu passado, porque é «obstinado» no amor, afirma papa

Imagem Papa Francisco | Jornada Mundial da Juventude, Carcóvia, Polónia | 28.7.2016 | © 2016 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.

Deus conta contigo por aquilo que és, não pelo que tens ou pelo teu passado, porque é «obstinado» no amor, afirma papa

A convicção de que Deus é maior que todas as fragilidades pessoais, que o mal do passado pouco importa para o abraço que quer dar ao ser humano e que o seu amor vence toda a desesperança, marcaram a homilia que o papa proferiu hoje em Cracóvia, na missa por ocasião do encerramento da 31.ª Jornada Mundial da Juventude (JMJ).

A intervenção de Francisco, perante centenas de milhares de jovens de vários pontos do globo, centrou-se também na certeza de que o encontro, e tudo o que ele significou para os seus participantes, não termina este domingo, mas prossegue pela vida, com opções e gestos concretos coerentes.

«Somos os filhos amados de Deus, sempre. Compreendeis então que não aceitar-se, viver descontentes e pensar de modo negativo significa não reconhecer a nossa identidade mais verdadeira? É como voltar-se para o outro lado enquanto Deus quer pousar o seu olhar sobre mim, é querer apagar o sonho que Ele tem para mim», vincou.

Nada há na história ou na personalidade de cada ser humano que possa afastar o enlaço e a ternura divinas: «Deus ama-nos assim como somos, e nenhum pecado, defeito ou erro Lhe fará mudar de ideia. Para Jesus – assim no-lo mostra o Evangelho –, ninguém é inferior e distante, ninguém é insignificante, mas todos somos prediletos e importantes: tu és importante».

«E Deus conta contigo por aquilo que és, não pelo que tens: a seus olhos, não vale mesmo nada a roupa que vestes ou o telemóvel que usas; não lhe importa se andas na moda ou não, importas-lhe tu. A seus olhos, tu vales; e o teu valor é inestimável», prosseguiu.

Por isso, vincou o papa, «Deus é fiel» no amor, «até mesmo obstinado»: «Ajudar-nos-á pensar que Ele nos ama mais do que nos amamos nós mesmos, que crê em nós mais de quanto acreditamos nós mesmos, que sempre nos apoia como o mais irredutível dos nossos fãs. Aguarda-nos sempre com esperança, mesmo quando nos fechamos nas nossas tristezas e dores, remoendo continuamente as injustiças recebidas e o passado».

«Afeiçoar-nos à tristeza, não é digno da nossa estatura espiritual. Antes pelo contrário; é um vírus que infecta e bloqueia tudo, que fecha todas as portas, que impede de reiniciar a vida, de recomeçar. Deus, por seu lado, é obstinadamente esperançoso: acredita sempre que podemos levantar-nos e não se resigna a ver-nos apagados e sem alegria», declarou.

A certeza do amor incondicional de Deus, deve configurar a existência, e para que dele não haja esquecimento ou desconsideração, Francisco sugeriu um gesto diário: «Lembremo-nos disto, no início de cada dia. Far-nos-á bem dizê-lo na oração, todas as manhãs: "Senhor, agradeço-vos porque me amais; fazei-me enamorar da minha vida". Não dos meus defeitos, que hão de ser corrigidos, mas da vida, que é um grande dom: é o tempo para amar e ser amado».

Para quem se afastou de Deus, o regresso à amizade e comunhão com Ele pode ser feito através do sacramento da Reconciliação: «Queridos jovens, não vos envergonheis de lhe levar tudo, especialmente as fraquezas, as fadigas e os pecados na Confissão: Ele saberá surpreender-vos com o seu perdão e a sua paz».

«Não tenhais medo de lhe dizer "sim" com todo o entusiasmo do coração, de lhe responder generosamente, de o seguir. Não vos deixeis anestesiar a alma, mas apostai no amor formoso, que requer também a renúncia, e um "não" forte ao doping do sucesso a todo o custo e à droga de pensar só em si mesmo e nas próprias comodidades», apelou.

A proximidade com Deus e a transformação pessoal dela resultante refletem-se depois em gestos concretos numa sociedade descrente e cética: «Poderão considerar-vos sonhadores, porque acreditais numa humanidade nova, que não aceita o ódio entre os povos, não vê as fronteiras dos países como barreiras e guarda as suas próprias tradições, sem egoísmos nem ressentimentos».

«Não desanimeis! Com o vosso sorriso e os vossos braços abertos, pregais esperança e sois uma bênção para a única família humana, que aqui tão bem representais», apontou.

Com «o olhar de Jesus», que «não se resigna perante os fechamentos, mas procura o caminho da unidade e da comunhão» e que «não se detém nas aparências, mas vê o coração», é possível «fazer crescer outra humanidade, sem esperar louvores, mas buscando o bem por si mesmo, felizes por conservar o coração limpo e lutar pacificamente pela honestidade e a justiça».

«Não vos detenhais à superfície das coisas e desconfiai das liturgias mundanas do aparecer, da maquilhagem da alma para parecer melhor. Em vez disso, instalai bem a conexão mais estável: a de um coração que vê e transmite o bem sem se cansar. E aquela alegria que gratuitamente recebestes de Deus, gratuitamente dai-a porque muitos esperam por ela», assinalou.

Hoje é o último e, ao mesmo tempo, o primeiro de muitos dias da 31.ª Jornada Mundial da Juventude, dedicada às palavras de Jesus «felizes os misericordiosos porque encontrarão misericórdia» (Mateus 5, 7): «A JMJ – poderíamos dizer – começa hoje e continua amanhã, em casa, porque é lá que Jesus te quer encontrar a partir de agora».

«O Senhor não quer ficar apenas nesta bela cidade ou em belas recordações, mas deseja ir a tua casa, habitar a tua vida de cada dia: o estudo e os primeiros anos de trabalho, as amizades e os afetos, os projetos e os sonhos. Como lhe agrada que tudo isto seja levado a Ele na oração! Como espera que, entre todos os contactos e os "chat" de cada dia, esteja em primeiro lugar o fio de ouro da oração! Como deseja que a sua Palavra fale a cada uma das tuas jornadas, que o seu Evangelho se torne teu e seja o teu "navegador" nas estradas da vida», disse.

A memória de Deus «não é um "disco rígido" que grava e armazena todos os nossos dados, mas um coração terno e rico de compaixão, que se alegra em eliminar definitivamente todos os nossos vestígios de mal. Tentemos, também nós agora, imitar a memória fiel de Deus e guardar o bem que recebemos nestes dias», afirmou Francisco, como síntese da sua homilia.

Na oração mariana do "Angelus" o papa anunciou que a próxima Jornada Mundial da Juventude, após as que se realizarão em 2017 e 2018 a nível diocesano, decorrerá em 2019, na cidade do Panamá, regressando à América Latina seis anos depois do encontro de 2013, no Rio de Janeiro.

Antes da missa, Francisco abençoou duas estruturas construídas para dar apoio à JMJ que permanecerão com evocação do encontro e tornar-se-ão sinal de misericórdia - uma casa para acolher idosos durante o dia e um centro da Cáritas -, bem como uma estátua da Virgem do Loreto.

De acordo com o programa, o papa encontra-se às 16h00 (hora de Portugal continental) com voluntários, organizadores e benfeitores da JMJ. A cerimónia de despedida, no aeroporto de Balice-Cracóvia, está prevista para as 17h15, e quinze minutos depois partirá o avião que levará Francisco de regresso a Roma, onde a chegada está prevista para as 19h15.

 




 

Rui Jorge Martins
Publicado em 31.07.2016

 

 

 
Imagem Papa Francisco | Jornada Mundial da Juventude, Carcóvia, Polónia | 28.7.2016 | © 2016 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.
«Deus é fiel» no amor, «até mesmo obstinado»: «Ajudar-nos-á pensar que Ele nos ama mais do que nos amamos nós mesmos, que crê em nós mais de quanto acreditamos nós mesmos, que sempre nos apoia como o mais irredutível dos nossos fãs. Aguarda-nos sempre com esperança, mesmo quando nos fechamos nas nossas tristezas e dores, remoendo continuamente as injustiças recebidas e o passado»
«Não vos detenhais à superfície das coisas e desconfiai das liturgias mundanas do aparecer, da maquilhagem da alma para parecer melhor. Em vez disso, instalai bem a conexão mais estável: a de um coração que vê e transmite o bem sem se cansar. E aquela alegria que gratuitamente recebestes de Deus, gratuitamente dai-a porque muitos esperam por ela»
«O Senhor não quer ficar apenas nesta bela cidade ou em belas recordações, mas deseja ir a tua casa, habitar a tua vida de cada dia: o estudo e os primeiros anos de trabalho, as amizades e os afetos, os projetos e os sonhos. Como lhe agrada que tudo isto seja levado a Ele na oração!»
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