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Deus, a natureza e nós

Imagem © sborisov/Fotolia

Deus, a natureza e nós

No ato de criação de tudo menos de si próprio, eternamente incriado que é, Deus, através desse mesmo ato, faz de si o elemento de absoluta unidade entre toda a criação. Este dado genesíaco é fundamental e nada pode ser compreendido acerca da verdadeira grandeza do criado e de cada uma das criaturas se a intuição de tal facto não estiver perenemente presente no espírito humano, de cada ser humano. A ausência desta intuição explica por si só muito do que é o desrespeito pelo criado, pelas criaturas, universalmente.

É muito antiga a perspetiva segundo a qual isso que é o divino em seu sentido absoluto não muda, não tem movimento, mudando tudo o resto. O Deus genesíaco não muda, o «Logos» de Heraclito não muda, o Bem platónico não muda, os sucedâneos aristotélicos desse mesmo bem também não mudam. Não são «naturais», isto é, não estão submetidos ao «brotar», sentido profundo de «natureza» para os velhos helénicos. O que brota, muda, se movimenta, isso é a «natureza». E não há mal algum na natureza senão a sua incompletude. Mas esta incompletude é condição necessária de aperfeiçoamento.

Assim, a natureza é imperfeição quando comparada com o que é perfeito, o «Deus», quer perfeição como possibilidade de infinita vocação para a perfeição, isto é, para se aproximar da perfeição «divina». A natureza, em si, não é má, é apenas perfeita na sua imperfeição perfetível. E não é este um jogo de palavras, mas uma muito séria afirmação.

O que distingue as grandes tradições intelectuais, tenham elas imediata tradução em forma religiosa ou não, é que nunca são maniqueias, isto é, nunca apresentam dois princípios onto-metafísicos absolutos de realidade, mas apenas um, o positivo. A negatividade deve-se ao mau uso das possibilidades, em si mesmas positivas, presentes no dom ontológico incoativo. Assim na tradição cristã, assim em grande parte da metafísica helénica, mas não já na sua mítica, essencial e substancialmente maniqueia, pois o seu princípio primeiro, o Caos, é concomitantemente princípio metafísico de positividade e de negatividade ontológica.

Mas os maiores pensadores do Ocidente como Heraclito, Platão e mesmo Aristóteles – se, ao pensar com ele, se tiver a inteligência de não pôr a matéria ao mesmo nível metafísico do Ato-Puro/Motor-Imóvel – são não-maniqueístas.

O mal, em todas estas tradições não-maniqueístas, entra no mundo – como sua fonte de corrupção – através da ação humana que, podendo sempre colaborar positivamente com o bem próprio do mundo, por vezes, escolhe colaborar negativamente, negando parte ou todo o bem possível, na forma de bens possíveis não realizados (a destruição de bens existentes é uma forma de negação da sua possibilidade de continuidade).

Por surpreendente que possa parecer, situamo-nos aqui no campo da ecologia, que não é ciência recente, mas saber vetustíssimo, que se pode encontrar nos textos mais antigos quer da nossa tradição quer de outras tradições. Apenas um exemplo esclarecedor: o mundo criado, prístino, no início da Bíblia, é o lugar ecológico perfeito, mesmo com os seres humanos que aí foram postos. É um ecossistema universal perfeito. A imperfeição ecossistémica começa precisamente com o famigerado caso da macieira, ecologicamente interpretável como o primeiro atentado contra a harmonia perfeita da criação.

Aquilo a que se chama «pecado» é a quebra da perfeição da sinfonialidade ecossistémica posta por Deus não «no mundo», mas «como mundo». O pecado é, assim, a nota propositadamente dissonante que interrompeu o acordo entre Deus e os que podiam dizer sim ou não. Simbolicamente, mas realmente em seu simbolismo fundamental, a questão ecológica começou com o não primordial à sinfonia – acordo – entre criador e criatura, porque a criatura quis saber como era delirar do acorde comum.

O mal é sempre este delírio propositado, aniquilador da consonância entre o bem do criador e o bem da criatura, delírio que nunca é ruína do criador, mas sempre ruína da criatura.

O mal é, portanto, esta «alogia», esta falta de sentido próprio necessário, introduzida no âmbito do lugar próprio da criatura, a sua morada, a sua casa, que, em grego antigo, se dizia «oikia», «oikos». A casa, na sua sinfonialidade própria, possui um sentido próprio, único, um «logos» iniludivelmente seu. Deste modo, a casa na sua necessária grandeza, é uma «oikia» com uma «logia» que lhe é consubstancial. O lugar próprio do ser humano é a «oiko-logia», a ecologia.

A ecologia não é, assim, uma disciplina ou uma ciência recentes, mas o modo próprio de o ser humano se situar, estar na e com a natureza, neste lugar ontológico que é o próprio seu. Se não se entender isto, não se entende coisa alguma em termos ecológicos.

Mas o falhanço inicial da ecologia genesíaca originou uma outra forma de se estar, esta inevitavelmente degradada, pois já não sinfonial: a «oikonomia», a economia. Esta, possuindo na designação não o termo «logia», mas o termo «nomia», implica que funciona não já através do puro labor lógico próprio da natureza das coisas em seu estado puro, mas através do labor «nómico», de normas, que só se justificam quando algo já não está bem.

Significativamente, passou-se da ecologia do paraíso, com seus princípios metafísicos possibilitadores de uma eco-ontologia perfeita, do sinfonial convívio entre naturezas impolutas, para a economia, com os seus «valores», que é o purgatório terreno da tentativa de convívio – geralmente fracassada – entre agentes mistos, uns ainda próximos da impoluta natureza criada, outros dela afastados: estes são os que necessitam da lei, porque não têm a inteligência necessária para perceber o seu lugar próprio na sinfonia do bem.

 

No princípio, não há lei, só há caridade.

Esta é o princípio único, que é o do amor oblativo no sentido do bem-comum. A ecologia fundamental está assegurada. Melhor, estaria, não fora a escolha não pelo amor propiciador do bem-comum, mas pelo ato egoísta de querer para mim o bem que não me pertence, por natureza: eis o significado eco-ontológico profundo do pecado. É o atentado contra esta principialidade eco-ontológica primeira que faz surgir a primeira lei, não já princípio positivo puro, mas interdição de frequência do lugar do bem-comum.

Percebe-se, assim, melhor o que Sua Santidade o Papa Francisco quer dizer quando usa a expressão «ecologia económica», no § 141 da sua Carta Encíclica Laudato Si’. No parágrafo anterior afirma: «Assim como cada organismo é bom e admirável em si mesmo pelo facto de ser uma criatura de Deus, o mesmo se pode dizer do conjunto harmónico de organismos num determinado espaço, funcionando como um sistema».

O princípio edénico fundamental posto absolutamente pelo ato de suprema caridade divina ao criar o mundo permanece: o Éden não é coisa mítica, mas a atualíssima possibilidade, posta ao nosso alcance, de, ainda hoje, sobretudo hoje, persistir em fazer o bem, não apenas em tolerar, que é um ato de vil sobranceria, não apenas em respeitar, que é um ato mínimo – como Kant bem percebeu –, mas em amar quer cada uma das criaturas quer a sua totalidade, neste que sempre foi o ecossistema global, a nossa Terra.

«Nossa Terra», não porque sejamos donos dela, mas porque é o comum lugar da nossa comum possibilidade. A nossa relação com esta Terra, com este ecossistema que nos é universal e necessário, não pode continuar a ser algo de depredatório, se a humanidade, isto é, cada um de nós, quiser continuar a poder ser. É claro que podemos continuar factualmente a ter com o ecossistema geral uma relação de constante depredação, mas, então, o próprio ecossistema irá naturalmente eliminar o fator de ameaça, nós próprios.

Tal não será apenas justiça poética, mas verdadeira justiça ecológica, pois o «logos» da «casa» não pode permitir que alguns dos seus habitantes, por mais entumescidamente vaidosos que sejam, aniquilem algo que não foi feito para ser por eles aniquilado. O paradigma económico do ecossistema é inexorável, como toda a economia naturalmente é, sem apelo, pois é o modo mecânico natural de o ecossistema se autorregular, tendo em vista a sua manutenção. A economia, seja em que forma for, é sempre antientrópica: quando falhar, a entropia vence. A ecologia é a economia não mecânica, como se o ecossistema possuísse uma finalidade intrínseca e de tal tivesse consciência.

As ciências positivistas negam tal posição, se bem que estejam continuamente a cair em afirmações finalistas, de que não conseguem escapar sem cair num caos lógico total que as arruinaria. Mas as tradições filosóficas e religiosas como a cristã assumem a finalidade intrínseca da ecossistémica global. De tal finalidade faz parte a possibilidade de integração do ser humano como coobreiro do aperfeiçoamento do estado natural; mas também faz parte a possibilidade contraditória.

Em termos universais, independentemente de ciência/ideologia, religião, menorização psicológica do ato humano, pode haver estruturalmente duas formas paradigmáticas de relacionamento com o ecossistema universal – extensíveis a isso que venham a ser os lugares de uma possível expansão externo-espacial da humanidade –, com a Terra: ou a tratamos como o filho Úrano, que constantemente a violava e mantinha nela, mortos para a liberdade, os frutos de tais atos, usando a Terra como escrava para os nossos mais vis caprichos, ou tratamos a terra como a branda e persistente chuva, que a penetra amorosamente, tornando-a verde, fértil e generosa, como só Deus, feito fecundo húmus, é.

A forma como tratamos a Terra é a forma como tratamos Deus e os nossos semelhantes. Que sou eu para com eles: mais uma besta depredatória ou mais um suave amante, que se desfaz carinhosa e caridosamente em dom, recebendo como glória todo e cada novo broto, de erva e de carne?

Todo o bem é esplendor do espírito de Deus; todo o mal, a sombra que o meu vício por sobre tal lança.

Deus é o grande ecologista, esse que escreveu o manual definitivo da ecologia. Convém lê-lo e pô-lo em pragmática prática. Não o fazer, é auto-aniquilarse: o que é ecologicamente perfeito, do ponto de vista da economia ecológica. Se dúvidas houver, é escolher, e esperar o resultado.

Está nas nossas mãos, de nós, que recebemos o bem, o manual de instruções e o poder de administrar tal bem. Não será o «dono da vinha» que virá cuidar dela por nós.

Repetimos, está nas nossas mãos.

 

Américo Pereira
Universidade Católica Portuguesa, Faculdade de Ciências Humanas
Publicado em 08.09.2015

 

 
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Por surpreendente que possa parecer, situamo-nos aqui no campo da ecologia, que não é ciência recente, mas saber vetustíssimo, que se pode encontrar nos textos mais antigos quer da nossa tradição quer de outras tradições. Apenas um exemplo esclarecedor: o mundo criado, prístino, no início da Bíblia, é o lugar ecológico perfeito, mesmo com os seres humanos que aí foram postos
O mal é sempre este delírio propositado, aniquilador da consonância entre o bem do criador e o bem da criatura, delírio que nunca é ruína do criador, mas sempre ruína da criatura
A ecologia não é, assim, uma disciplina ou uma ciência recentes, mas o modo próprio de o ser humano se situar, estar na e com a natureza, neste lugar ontológico que é o próprio seu. Se não se entender isto, não se entende coisa alguma em termos ecológicos
Caridade: esta é o princípio único, que é o do amor oblativo no sentido do bem-comum. A ecologia fundamental está assegurada. Melhor, estaria, não fora a escolha não pelo amor propiciador do bem-comum, mas pelo ato egoísta de querer para mim o bem que não me pertence, por natureza: eis o significado eco-ontológico profundo do pecado
«Nossa Terra», não porque sejamos donos dela, mas porque é o comum lugar da nossa comum possibilidade. A nossa relação com esta Terra, com este ecossistema que nos é universal e necessário, não pode continuar a ser algo de depredatório, se a humanidade, isto é, cada um de nós, quiser continuar a poder ser
A forma como tratamos a Terra é a forma como tratamos Deus e os nossos semelhantes. Que sou eu para com eles: mais uma besta depredatória ou mais um suave amante, que se desfaz carinhosa e caridosamente em dom, recebendo como glória todo e cada novo broto, de erva e de carne?
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