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Corpo de Deus: Para todos toda a vida de Jesus

Esta festa da Eucaristia, ou do Corpo do Senhor, ou solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, como a solenidade da Trindade de Deus celebrada no passado domingo, é tardia. Foi, com efeito, instituída no séc. XIII, e no século seguinte foi difícil impor-se no Ocidente, permanecendo sempre desconhecida na tradição ortodoxa. A intenção da Igreja é propor, fora do santíssimo Tríduo Pascal, a contemplação, a adoração e a celebração do mistério eucarístico do qual faz memória a Quinta-feira Santa. Quanto o excerto evangélico, o missal propõe a leitura da narração da última ceia no Evangelho segundo Marcos (14, 12-16. 22-26).

Antes da sua prisão e da sua morte na cruz, Jesus quis celebrar a Páscoa com os seus discípulos, e precisamente por isso, durante a sua última pernoita em Jerusalém, no primeiro dia da festa dos pães ázimos, envia dois dos seus discípulos para que preparem o necessário para a ceia pascal. Jesus sabe que é alvo de perseguição, que nem sequer pode confiar em todos os seus discípulos, dado que um já o havia traído (cf. MArcos 14, 10-11), portanto predispõe cada coisa para que aquela ceia pascal possa acontecer, ma age com muita circunspeção, como se não quisesse que se soubesse onde a celebraria.

Por isso os dois discípulos por Ele enviados têm de encontrar um homem que leva uma bilha de água (coisa insólita, dado que eram as mulheres a realizar essa operação, mas esse é o sinal acordado) e têm de o seguir até uma casa, onde lhes indicará o «andar superior», a sala já preparada e pronta, na qual se predispõe tudo para a ceia pascal. É preciso, efetivamente, preparar o pão, o vinho, o cordeiro, as ervas amargas, para recordar numa refeição - como previa a Lei - a saída de Israel do Egito, a libertação da escravidão, o nascimento do povo pertencente ao Senhor. E assim, em obediência à ordem dada por Jesus com autoridade e gravidade aos dois discípulos enviados, tudo fica preparado para aquela celebração pascal, para aquela hora solene, para aquela hora última de Jesus com os seus discípulos, para aquela hora na qual a Páscoa do cordeiro se tornará a Páscoa de Jesus.



Não nos esqueçamos que o gesto de partir o pão já nos profetas indicava o partilhar o pão com os pobres, os necessitados e os famintos (cf. Isaías 58, 7), exprimindo desse modo uma partilha daquilo que faz viver, que manifesta a comunhão entre todos aqueles que comem o mesmo pão



E quando Jesus se senta à mesa para a ceia, cumpre gestos e diz algumas palavras sobre o pão e o vinho, dando origem à celebração da nova aliança com a sua comunidade. Desta cena temos quatro narrações, três nos Evangelhos sinóticos (cf. Marcos 14, 22-25, Mateus 26, 26-29, Lucas 22, 18-20) e uma, a mais antiga, na primeira carta aos Coríntios (cf. 11, 23-25): narrações que reportam palavras algo diferentes entre elas, testemunhando com não se trata de fórmulas mágicas a repetir tal e qual, mas de palavras que manifestam a intenção de Jesus e explicam os seus gestos. As primeiras comunidades cristãs, por isso, querendo permanecer fiéis à intenção de Jesus, redisseram as suas palavras, retomaram os seus gestos, e desde então a ceia do Senhor é celebrada na Igreja sempre e em todo o lado.

Antes de tudo Jesus cumpre uma ação ritual; toma o pão ázimo que está na mesa, pronuncia a bênção a Deus por esse dom, depois parte-o e oferece-o aos discípulos. Tomar o pão, parti-lo e dá-lo é um gesto quotidiano feito por quem preside à mesa, mas Jesus realiza-o com uma intensidade e uma força que o tornam repleto de significado, imprimindo o gesto na mente e no coração dos comensais daquela ceia pascal. Jesus assume a atitude e a palavra da Sabedoria de Deus que fala e convida para o banquete (cf. Provérbios 9, 1-6), faz suas as palavras do profeta que chama à refeição da aliança eterna (cf. Isaías 55, 1-3) e oferece como alimento a sua vida, o seu corpo, Ele próprio! Há neste gesto e nestas palavras de Jesus o seu dar-se até ao extremo, porque Ele amou e ama até ao dom da sua vida (cf. João 13, 1). Diante desta ação os discípulos ficaram certamente abalados e só após a morte e ressurreição de Jesus compreenderam aquilo que não puderam esquecer.

Não nos esqueçamos, além disso, que o gesto de partir o pão já nos profetas indicava o partilhar o pão com os pobres, os necessitados e os famintos (cf. Isaías 58, 7), exprimindo desse modo uma partilha daquilo que faz viver, que manifesta a comunhão entre todos aqueles que comem o mesmo pão. É por isso que o primeiro nome dado à Eucaristia pelos discípulos e cristãos das origens é "fração do pão". Quanto às palavras que acompanham o gesto - «tomai, este é o meu corpo» - querem significar que Jesus entrega é dá toda a sua vida aos discípulos, que, comendo esse pão, fazem-se participantes da sua vida gasta e entregue por amor, «até à morte e morte de cruz» (Filipenses 2, 8). Desta forma Jesus explica em antecipação e em plena liberdade, com gestos e palavras, o que lhe acontecerá dentro em pouco: a sua morte deverá ser apreendida como dom da sua vida aos homens, vida oferecida em sacrifício a Deus.



A refeição eucarística é prelúdio do banquete do Reino, onde Jesus, o Senhor ressuscitado, comerá connosco e beberá connosco o cálice da vida futura, no banquete nupcial, onde o vinho será novo, isto é, outro, último e definitivo, vinho da própria vida divina, a sua vida que é "agápe", amor



Depois Jesus toma também o cálice entre as suas mãos, dá graças a Deus pelo fruto da videira e com solenidade declara: «Este é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado pelas multidões». Como deu o seu corpo oferecendo o pão, assim dá o seu sangue oferecendo o cálice do vinha a beber aos discípulos; por outras palavras, Jesus dá a sua vida, significada na cultura semita pelo sangue. O evangelista sublinha que deste cálice «todos beberam», porque o dom de Jesus é para todos, ninguém excluído. Há um contraste entre este «todos», que indica todos os discípulos, e as palavras ditas antes: «Um de vós trair-me-á» (Marcos 14, 18). Mas isto salienta ainda mais o facto de que todos são associados ao beber o cálice oferecido, inclusive Judas, o traidor. A todos, ninguém excluído, Jesus oferece a sua vida e o seu amor gratuito, que nunca deve ser merecido.

Mas aqui deve igualmente colher-se o cumprimento a que Jesus quer levar as palavras que selavam a aliança entre Deus e Israel no monte Sinai, quando, com o sangue das vítimas do sacrifício, Moisés asperge o altar, trono de Deus, e o povo reunido em assembleia, dizendo: «Este é o sangue da aliança» (cf. Êxodo 24, 6-8). No Sinai, naquela celebração da aliança, o sangue, a vida unia Deus e o seu povo num pacto de pertença recíproca, numa comunhão fiel na qual Deus se mostrava como «o Senhor misericordioso e compassivo, lento para a ira, grande no amor e na fidelidade» (Êxodo 34, 6). Mas a aliança que Jesus estipula com o dom da sua vida já não se restringe ao povo de Israel, mas é uma aliança universal, aberta a todas as gentes, uma aliança no seu sangue derramado «pelas multidões», não "por muitos", mas "por todos". O apóstolo Paulo, precisamente para afirmar este destino universal do dom do sangue de Cristo, escreve na carta aos Romanos: «A prova de que Deus nos ama a todos é que o Cristo morreu por nós, enquanto éramos pecadores» (cf. Romanos 5, 7-8). Morreu por todos, inclusive por Judas, como por todos nós que estamos na maldade e na inimizade com Deus. Aqui devemos colher como o dom da Eucaristia não é um prémio, um privilégio para os justos, mas um medicamento para os doente, um viático para os pecadores. A Eucaristia outra coisa não é que a narração em palavras e gestos do amor de Deus, é a síntese de toda a vida do Filho Jesus Cristo, a síntese de toda a história de salvação.

Recordemos, por fim, que aquela antecipação da morte de Jesus, no rito de ação de graças sobre o pão partido e no rito do cálice partilhado, é também uma antecipação do Reino que vem, onde a morte será vencida para sempre. Por isso Jesus diz: «Ámen, Eu vos digo que não beberei mais do fruto da videira, até ao dia em que o beber novo, no reino de Deus». A refeição eucarística é por isso prelúdio do banquete do Reino, onde Jesus, o Senhor ressuscitado, comerá connosco e beberá connosco o cálice da vida futura, no banquete nupcial, onde o vinho será novo, isto é, outro, último e definitivo, vinho da própria vida divina, a sua vida que é "agápe", amor: e nós beberemos esse vinho novo vivendo nele e com Ele para sempre.


 

Enzo Bianchi
In Monastero di Bose
Trad.: SNPC
Imagem: MIA Studio/Bigstock.com
Publicado em 30.05.2018

 

 
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