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Solenidade do Corpo de Deus: Das origens ao acolhimento e evolução em Portugal

Solenidade do Corpo de Deus: Das origens ao acolhimento e evolução em Portugal

Imagem Procissão do Corpo de Deus | Lisboa | 2007 | D.R.

A instituição da solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, em Portugal chamada de Corpo de Deus, situa-se no movimento desejoso de ver a hóstia e a adorar, que valorizou o momento da celebração em que se faz a narração da Ceia, assinalado pelo toque de campainha e com solenização ritual.

As raízes da festa do Corpus Christi remontam às visões místicas de Santa Juliana de Liège, então priora no mosteiro do Monte Carmelo, em 1208. O diretor espiritual da religiosa, obtendo o juízo favorável de numerosos teólogos sobre as visões, apresentou ao bispo o pedido de introduzir uma festa em honra do Corpo de Cristo.

A solicitação foi aceite e a festa foi instituída em 1246, sendo aprovada para toda a Igreja latina em 1264, na quinta-feira após a oitava do Pentecostes, embora atualmente em muitos países se celebre no domingo seguinte, como aconteceu em Portugal, durante a suspensão do seu feriado.



Imagem Procissão do Corpo de Deus | Lisboa | 2007 | D.R.

O alargamento da solenidade ao mundo latino constituiu uma resposta de fé e de culto a doutrinas heréticas sobre a presença real de Cristo na Eucaristia, ao mesmo tempo que coroou um movimento de devoção ardente ao Santíssimo Sacramento do altar.

Em 1318 o papa João XXII, em Avinhão, acrescentava-lhe a procissão solene, que se caracteriza por levar em triunfo o «Santíssimo Sacramento».

«Entre as procissões eucarísticas, tem particular importância e significado, na vida pastoral da paróquia ou da cidade, aquela que se costuma fazer cada ano na solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo ou noutro dia mais oportuno próximo desta solenidade», refere o "Ritual da Sagrada Comunhão e Culto do Mistério Eucarístico Fora da Missa".

«Usem-se as luzes, o incenso, e o pálio debaixo do qual caminha o sacerdote que leva o Santíssimo, segundo os costumes locais. É conveniente que a procissão se dirija duma igreja para outra. Todavia, se as circunstâncias de lugar o aconselharem, também pode voltar para a mesma igreja donde saiu. No fim da procissão, dá-se a bênção do Santíssimo na igreja da chegada ou noutro lugar mais apropriado; e repõe-se o Santíssimo Sacramento», assinala o mesmo documento.



Imagem Procissão do Corpo de Deus | Lisboa | 2007 | D.R.

Em Portugal a festa foi instituída pouco depois da sua criação belga e antes da determinação papal. Há referências para o Porto em 1294 e para Coimbra ainda no século XIII.

O título de «Corpus Christi» aparece em livros da Colegiada de Guimarães (1302), foi dado ao convento dominicano de Gaia (entre 1348 e 1352) e para reparar um ultraje (1361 e 1362) à eucaristia acontecido em Coimbra foi erguida a Capela do Corpo de Deus, cerca de 1367. Em Évora dá o nome a uma travessa (1385). A Confraria do Corpo de Deus da Igreja de São João Bartolomeu (Guadalupe), em Braga, em 1403 já tinha uma centena de irmãos. Todas as cidades e vilas do reino realizavam com brilho a mais espantosa das procissões.

A procissão dava lugar a representações, como se conhece no tempo de D. Manuel. As manifestações teatrais e os jogos de danças que se juntaram aos cortejos solenes davam lugar a abusos, que foram controlados por determinações diocesanas.



Imagem Procissão do Corpo de Deus | Lisboa | 2007 | D.R.

A partir do final do século XV assistiu-se a uma vaga de fundo de ordenação e moralização das procissões católicas que atingiu acima de todas a do Corpus Christi, que na apresentação das diferentes corporações de mesteres ou determinados ofícios acabava por denotar a vida do concelho mas provocava crescimentos espetaculares de representatividade que procuravam fazer chamadas de atenção sobre o poder, económico em primeiro lugar, de alguns dos participantes.

As proibições desta procissão concelhio-religiosa foram muitas e atingiram sobretudo os seus elementos festivaleiros, como o São Jorge, o seu alferes, cavalo e sela, o Dragão, Serpe ou Conca, as danças e folias variadas.

Além da particular exaltação eucarística na Quinta-feira Santa, os acontecimentos mais atribulados da vida social e política e ocasiões de profanações sacrílegas proporcionavam solenes e emotivos atos de desagravo. João Marques sublinha o momento da Restauração como particularmente propício ao recurso do imaginário eucarístico nos sermões e nas narrações de atos litúrgicos. Unia-se a defesa da pátria à comunhão eucarística.



Imagem Procissão do Corpo de Deus | Lisboa | 2007 | D.R.

Esta sensibilidade foi contrariada pela separação da Igreja do Estado e pelas orientações do concílio plenário (1926), que conseguiram reduzir a procissão ao meramente religioso e nalguns lugares levaram mesmo à sua suspensão.

Quando, nas décadas de 40 e 50 do século XX se assistiu a um recrudescimento e recuperação da procissão do Corpus Christi, facilmente aproximável na sua lógica de desfile da visão corporativa da sociedade, é pelo arranjo das ruas com flores e pelo engalanar das janelas com colchas que se vai dar a tonalidade festiva e de aderências das populações.

«A festa do Corpo de Deus é a festa das mãos: das mãos do Senhor e das nossas mãos. Dessas "santas e veneráveis mãos" de Jesus, mãos chagadas, que continuam a abençoar e a repartir o pão da Eucaristia. E é a festa dessas mãos nossas, necessitadas e pecadoras, que se estendem, humildes e abertas, para receber com fé o Corpo de Cristo», frisou em 2001 o cardeal Jorge Bergoglio, atualmente o papa Francisco.



Imagem Procissão do Corpo de Deus | Lisboa | 2007 | D.R.

Na homilia da missa da solenidade do Corpo de Deus, em Buenos Aires, de que era arcebispo, acrescentou: «Que o pão divino transforme as nossas mãos vazias em mãos cheias, com essa medida "apertada, sacudida e transbordante" que promete Jesus a quem é generoso com os seus talentos. Que o doce peso da Eucaristia deixe a sua marca de amor nas nossas mãos, para que, ungidas por Cristo, se convertam em mãos que acolhem e envolvem os mais fracos. Que o calor desse pão consagrado nos queime as mãos com o desejo eficaz de compartilhar um tão grande dom com os que têm fome de pão, de justiça e de Deus. Que a ternura da comunhão com esse Jesus que se põe sem reservas nas nossas mãos num verdadeiro "gesto inédito", nos abra os olhos do coração à esperança, para sentir presente o Deus que está «todos os dias connosco» e nos acompanha no caminho».

«"Corpo de Deus", expressão interessante, deveras. Faz-nos lembrar que, em Cristo, Deus tomou corpo neste mundo. Ora, por "corpo" entendemos a manifestação visível, a realidade e concretização material de um ser; e entendemos sobretudo de um ser em relação com os outros, relação que a mediação corpórea significa e permite», sublinhou, por seu lado, em 2007, o então bispo do Porto, D. Manuel Clemente, hoje cardeal-patriarca de Lisboa.

Imagem Procissão do Corpo de Deus | Lisboa | 2007 | D.R.

Confrarias do Santíssimo Sacramento

Conhecem-se entre nós, desde meados do século XV, as confrarias do Santíssimo Sacramento. O compromisso da existente na freguesia de Castro (Ponte da Barca) data de 1457.

Para reagir ao abandono a que se viam destinados tantos sacrários sem veneração, alguns devotos decidiram criar, no convento dominicano de Santa Maria Sopra Minerva (Roma) uma confraria destinada ao culto do Santíssimo Sacramento, com diversos gestos e ações. O papa Paulo III aprovaria esta piedade para toda a Igreja em 30.11.1539. Vários opúsculos espalharam pelo mundo a mesma devoção.

Os testemunhos portugueses são também precoces. Faculdades para criar congéneres são concedidas pelo papado ao cardeal D. Henrique, para Braga (1540) e para Évora, pouco depois.

O alastrar da instituição é rápido durante o século XVI e sofre incremento tridentino (Concílio de Trento, 1545-1563). Aos poucos todas as igrejas erigiram estas associações. Foram fundamentais para preservar muito património e zelar pela beleza dos espaços. O ímpeto lançado no povo católico à volta do culto eucarístico é fulgurante de realizações piedosas.



Imagem Procissão do Corpo de Deus | Lisboa | 2007 | D.R.



Imagem Procissão do Corpo de Deus | Lisboa | 2007 | D.R.



Imagem Procissão do Corpo de Deus | Lisboa | 2007 | D.R.



Imagem Procissão do Corpo de Deus | Lisboa | 2007 | D.R.



Imagem Procissão do Corpo de Deus | Lisboa | 2007 | D.R.



Imagem Procissão do Corpo de Deus | Lisboa | 2007 | D.R.



Imagem Procissão do Corpo de Deus | Lisboa | 2007 | D.R.

 

Carlos A. Moreira Azevedo, António Camões Gouveia (Dicionário de História Religiosa de Portugal); Diretório sobre a piedade popular e a Liturgia; Santi i beati
Redação e fotografias: Rui Jorge Martins
Publicado em 26.05.2016

 

 
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