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Corpo de Deus: Eucaristia e cidade podem comunicar

Corpo de Deus: Eucaristia e cidade podem comunicar

Imagem Procissão do Corpo de Deus | D.R.

Para a minha geração a procissão do Corpo de Deus, com o ostensório e o pálio que atravessam as ruas da cidade constituiu durante muito tempo a imagem simbólica mais importante de um género de presença da Igreja na sociedade.

Agora que, ao contrário, alguns gostariam de forçar a laicidade do Estado até ao ponto de excluir qualquer manifestação pública de culto, relegando a dimensão da fé para a esfera estritamente privada, torna-se necessário redescobrir os modos em que a fé pode ser testemunhada comunitariamente, inclusive no espaço público por excelência, a cidade.

Se, de facto, a celebração eucarística ocorre como mistério da fé na comunidade rigorosamente delimitada, a vida eucarística, a oferta eucarística da vida de um cristão ocorre na polis, na companhia dos homens. Da liturgia na "sala de cima" à existência na polis: a única Eucaristia é narrada, mostrada e vivida.

Pode dizer-se que a celebração da Eucaristia acontece no espaço santo da Igreja e em unidade com o espaço santo da comunhão dos santos do céu e dos anjos, no "cenáculo", mas em função de uma vida na cidade em que a Eucaristia dá o seu fruto.

Quando Jesus morreu dando a vida, a cidade viu um homem na cruz, cuja execução foi profana, sendo até um anátema, fora da cidade. Todavia Lucas escreveu que a multidão que acorreu a ver aquele espetáculo - literalmente aquela «contemplação» - regressa a Jerusalém batendo no peito.



Hoje que as nossas urbes deixaram de ser inteiramente cristãs (admitindo que nunca o foram), Eucaristia e cidade podem parecer duas realidades longínquas, sem possibilidade de interação, e por isso devemos discernir atitudes e palavras que tornam a comunicação não só possível, mas operante em profundidade, secretamente, sem aparência vistosa nem ostentação



Ora, se homens eucarísticos morrem dando a vida pelos irmãos - pensemos nos mártires dos nossos dias -, se morrem assassinados violentamente pela cidade totalitária que sempre emerge na história, e se morrendo assim perdoam e invocam de Deus o perdão para os inimigos, ou se mulheres e homens eucarísticos servem humildemente os irmãos gastando diariamente a vida por eles, se há cristãos que escolhem os pobres, os humildes e os últimos e, discernindo-os entre o próximo, acompanham-nos até partilhar o sofrimento, então eles preparam e provocam uma mudança em quem habita a cidade.

Porquê? Porque narram o amor, exatamente como a Eucaristia narra o amor. Ao terminar o lava-pés, Jesus diz: «Por isto todos saberão que sois meus discípulos, se tiveres amor uns pelos outros». É o testemunho eucarístico para os «muitos» feito vida, traduzido em relações interpessoais e socais. «Olhai: Ele vem no meio das nuvens! Todos os olhos o verão» (Apocalipse 1, 7): é Ele, o Cristo trespassado, o Cristo narrado pela Eucaristia, o Cristo narrado pela cruz.

Hoje que as nossas urbes deixaram de ser inteiramente cristãs (admitindo que nunca o foram), Eucaristia e cidade podem parecer duas realidades longínquas, sem possibilidade de interação, e por isso devemos discernir atitudes e palavras que tornam a comunicação não só possível, mas operante em profundidade, secretamente, sem aparência vistosa nem ostentação.

Esta relação acontece em virtude das energias eucarísticas libertadas pela morte e ressurreição do Senhor que a Eucaristia narra, mas acontece também se nós, cristãos, celebrarmos com seriedade e autenticidade a Eucaristia, reconhecendo e adorando o Senhor, deixando-nos plasmar por ela à imagem de Jesus Cristo, vivendo como Ele viveu. Ele passou entre os homens, fazendo o bem, recorda Pedro, e quem vive da Eucaristia e segundo a sua lógica habita na cidade, entre os próprios contemporâneos, fazendo o bem.

Inácio de Antioquia escrevia que «o cristianismo não é obra de persuasão, mas é algo de verdadeiramente grande»; ou seja, não é para ser ostentado mas vivido. Se os cristãos forem homens e mulheres eucarísticas, capazes de intercessão e de ação de graças-Eucaristia, então a cidade daí extrairá paz e bem. «É por causa da intercessão dos cristãos que o mundo segue por diante», escrevia o apologeta Aristides: sim, esta intercessão é também solidariedade ativa, companhia afetuosa que se torna fecunda para toda a cidade.



 

Enzo Bianchi
Prior do mosteiro de Bose, Itália
In SIR
Trad.: SNPC
Publicado em 16.06.2017

 

 
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