

"Agnus Dei" | Francisco de Zurbarán | C.1635-c.1640 | Museu do Prado, Madrid, Espanha
A pintura "Agnus Dei" (Cordeiro de Deus), de Francisco de Zurbarán, «um dos génios da pintura espanhola», que pode ser visto no Museu do Prado, em Madrid, é um dos temas escolhidos pela cronista Clara Ferreira Alves na mais recente edição do "Expresso".
«Este cordeiro, embora retratado com tão grande naturalismo que parece estar vivo e temos vontade de lhe passar a mão no dorso lãzudo, é uma representação simbólica do cordeiro de Deus, da paixão de Cristo», sublinha.
Clara Ferreira Alves sustenta que «não existe na pintura clássica, onde a representação do cordeiro de Deus é múltipla, uma pintura igual a esta. É a arte a imitar a vida e a ultrapassá-la, transcendendo-a».
«O cordeiro, na tradição "caravaggista", aparece-nos nimbado de uma luz que realça a penugem pálida no meio das trevas e tem uma expressão humana na fenda do olho que está voltado a para nós, embora o olho esteja quase fechado. Como é isto possível? O génio, evidentemente», assinala.
Depois de apontar para outras obras de Zurbarán, como a "Imaculada Conceição" e "Francisco de Assis", o texto regressa ao "Agnus Dei" para realçar que o cordeiro se distingue «porque inspira uma infinita compaixão perante um destino mortal».
«O cordeiro é o filho de Deus que veio para nos salvar e tirar os pecados do mundo e é ao mesmo tempo um animal igual a nós, seres humanos condenados a perecer, a desaparecer. Todos temos as mãos e os pés atados na espera da estação terminal. Ao contrário do cordeiro, não nos resignamos. O cordeiro é um mistério sobre o mistério da morte», observa.
Na segunda parte da crónica, Clara Ferreira Alves começa por realçar que «a grande arte providencia uma educação, não apenas estética. A visita (virtual ou física) aos museus e a convivência com a grande pintura, a grande arte, deviam ser obrigatórias nas escolas, tal como a educação musical».
«O currículo primário e secundário português, com as suas perguntas esdrúxulas nos exames a que nenhum adulto educado e culto saberá responder, ignora olimpicamente a arte. Ou aborda-a de uma forma puramente histórica ou formal, sem profundidade. O olhar não fica treinado», defende.
Em Portugal, «a arte, exceto a arte contemporânea e como investimento, não mobiliza as elites», que ao longo da história, apesar do império, «aristocracia e burguesia com dinheiro e poder aquisitivo ou mecenático», sempre foram deficitárias «de gosto e de generosidade. De grandeza. Não existe uma ala ou coleção museológica doada por uma das grandes famílias. Para comprar um quadro tem de ser o povo a esportular», refere.